A fragilidade da democracia e o valor atribuído à palavra ‘golpe’

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Quando o autoritarismo ganha adeptos e a preferência pela democracia diminui, quanto “ultrapassar o limite” é considerado negativo?

Uma pesquisa do Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, do INCT, divulgada neste mês mostra uma série de indicadores que apontam a fragilidade do funcionamento democrático no Brasil. De acordo com o levantamento, apenas 19,4% dos entrevistados dizem estar satisfeitos ou muito satisfeitos com a democracia. Em comparação com 2014, houve uma queda significativa, de mais de 19 pontos percentuais. O descenso a respeito dessa questão começou em 2010.

No levantamento, feito no mês de março, também foi avaliada a opinião dos entrevistados sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Entre as quatro opções de resposta apresentada a eles, 48% concordaram que “foi um golpe”. Outros 44% disseram que “foi normal e que faz parte do processo democrático”. O restante não quis ou não soube responder.

Questionados sobre quando um golpe de Estado pelos militares seria justificado, 47,8% dos entrevistados defenderam a medida em caso de “muita corrupção” e 53,2% no contexto de “muito crime”.

Como a própria pesquisa ressalta, não foram feitas perguntas com o objetivo de identificar o que os entrevistados entendem por golpe ou como o qualificam. A ausência de tais questionamentos breca qualquer análise mais profunda sobre se, para a população, o golpe foi algo positivo ou negativo.

A palavra possui uma carga negativa no cotidiano, quando falamos do “golpe do cartão de crédito”, de um “golpe financeiro” etc. No entanto, desde 2014 o termo vem sendo tão amplamente usado por políticos –da esquerda e da direita–, pela mídia e pela sociedade em geral que há dúvidas se uma parcela das pessoas que respondeu que o impeachment de Dilma foi um golpe não considera isso algo positivo.

Uma das autoras da pesquisa, a professora do Departamento de Ciências Políticas da Unicamp e pesquisadora do Cesop (Centro de Estudos de Opinião Pública), Rachel Meneguello, discorda de que haja qualquer ambiguidade no valor que a palavra “golpe” carrega.

Segundo ela, quando uma das opções da resposta é que o impeachment foi “algo normal”, a resposta “foi um golpe” significa que golpe se trata de algo anormal e, por consequência, não seria bem visto pelos entrevistados.

“A contraposição está aqui: golpe é negativo, normal é positivo”, afirma. E acrescenta: “Quem escolheu ‘foi golpe’ está dizendo que não faz parte do processo democrático. A ideia de golpe é que ela está ultrapassando limite. O golpe tem sempre esse sentido para nós”.

Mas diante de um contexto em que apenas 19,4% dizem estar satisfeitos com o sistema democrático, além do fato do percentual que prefere a ditadura em algumas situações vir crescendo — e os que acreditam que a democracia é a melhor forma de governo vir reduzindo –, quanto “ultrapassar o limite” é considerado algo negativo para alguns?

Meneguello rebate a reflexão dizendo que “a opção pela escolha de que o processo de impeachment foi um golpe não tem muita relação com o golpe de Estado dos militares, mas tem relação clara em termos políticos com o que aconteceu em 2016”. Ela, porém, admite que a diferenças entre os dois golpes pode não estar no mapa de referência dos mais jovens.

Guardando as devidas proporções e contextos, vê-se a intervenção no Rio de Janeiro: trata-se de uma intervenção do governo federal, mas nas ruas e em alguns meios de comunicação se ouve repetidas vezes que se trata de uma intervenção militar.

Sem rumo

Chama muito atenção dos autores do levantamento o número daqueles que não tem preferência ou não sabem que sistema político preferem. Segundo os dados de março deste ano 13% dos entrevistado afirmaram que tanto faz entre a democracia e a ditadura, enquanto aqueles que não souberam responder chegaram a 9,4%. A soma dos que estão sem rumo chega a 22,4%.

“A partir de 2014 o ‘não sei o que prefiro’ subiu demais. E o não saber o que você prefere é um problema tão ou mais sério do que preferir a ditadura em algumas situações”, afirma Meneguello. De acordo com ela, a falta de uma posição deixa a sociedade vulnerável ao que se venha apresentar a ela.

Fonte: Carta Capital

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