Diplomacia branca: só 15,7% dos diplomatas são negros; na chefia de postos, índice cai para 4,9%

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Apesar de negros representarem 55,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022, eles ocupam apenas 15,7% da carreira diplomática do país. No topo dessa estrutura, a disparidade é ainda mais acentuada: entre os postos de chefia no exterior – como embaixadas, consulados e missões –, apenas 4,9% eram chefiados por pessoas negras em setembro de 2025.

Os dados integram o Boletim Estatístico Étnico-Racial do Serviço Exterior Brasileiro – 4ª edição, produzido pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), com base em autodeclaração dos servidores. As informações foram obtidas pelo Brasil de Fato por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). O boletim tem como data de referência 29 de setembro de 2025 e utiliza registros dos sistemas SIAPE e SouGov.

No recorte das chefias, o boletim mostra que 91,7% dos 204 postos no exterior estavam sob comando de pessoas brancas. Pretos eram apenas 1,0% e pardos, 3,9%. Indígenas e amarelos somavam, respectivamente, 1% e 1,5% das chefias. O percentual de cor/raça não informada foi de 1%. A função de chefe de posto é ocupada por diplomatas que comandam unidades do Brasil no exterior, como embaixadas e consulados, e têm responsabilidades estratégicas na representação internacional do país.

O cenário se repete no comando máximo do Itamaraty. Ao menos desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, nenhuma pessoa negra chefiou o Ministério das Relações Exteriores, que também nunca foi comandado por uma mulher.

Carreira diplomática tem estrutura rígida e lenta progressão

A carreira diplomática do Itamaraty é organizada por uma hierarquia funcional que vai do cargo inicial, de terceiro-secretário, até o topo, ocupado por ministros de primeira classe. O ingresso se dá por concurso público, e as promoções dependem de tempo de serviço, desempenho, critérios de mérito e a conclusão de cursos internos, como o Curso de Aperfeiçoamento e o Curso de Altos Estudos promovidos pelo Instituto Rio Branco. A única promoção feita exclusivamente por antiguidade é a de terceiro para segundo-secretário.

O boletim do MRE apresenta a distribuição étnico-racial em cada uma das seis classes da carreira: terceiro-secretário (TS), segundo-secretário (SS), primeiro-secretário (PS), conselheiro (C), ministro de segunda classe (MSC) e ministro de primeira classe (MPC). A tendência geral mostra que, quanto mais alto o cargo, menor a presença de diplomatas negros – e maior a concentração de servidores brancos.

Nos cargos iniciais, por exemplo, pessoas negras representam 33,9% dos terceiros-secretários. Entre os segundos-secretários, são 23,2%. Já no topo da carreira, os ministros de primeira classe, apenas 6,3% se autodeclaram negros. Nessa classe, 90,1% são brancos. Amarelos somam 2,8% e indígenas não aparecem no levantamento para essa categoria.

Além da diminuição da presença de negros conforme a carreira avança, também chama atenção a baixa participação de indígenas em todas as classes – com nenhum registro nos cargos mais altos – e a presença minoritária de pessoas amarelas, que variam entre 1,1% e 4,5% dependendo da classe.

Os números mais recentes reforçam a percepção de que mulheres enfrentam obstáculos adicionais no topo da carreira diplomática. Segundo o Boletim Estatístico sobre Mulheres no Serviço Exterior Brasileiro, publicado em 2025, elas representam apenas 23% do total de diplomatas em atividade. Nas chefias de postos, a presença feminina é ainda menor: apenas 18%.

Diplomata contesta promoção e leva caso à Justiça

entrevista publicada pelo Correio Braziliense em fevereiro de 2024, a embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert relatou ter sido preterida em uma promoção para ministra de primeira classe, apesar de estar mais bem colocada que o colega promovido.

Segundo a diplomata, que à época era a única mulher negra no quadro especial de ministros de segunda classe aptos à promoção, ela ocupava a 25ª posição na lista de acesso. O nome escolhido teria sido o de um homem branco que estava na 61ª colocação. O caso citado por ela ocorreu em dezembro de 2023.

Ela, então, decidiu judicializar o caso. Um mandado de segurança impetrado pela diplomata no Supremo Tribunal Federal (STF) está sob relatoria do ministro Kassio Nunes e aguarda julgamento.

À época da entrevista, Isabel criticou o que chamou de falta de transparência nos processos internos do ministério, afirmando que não há registros escritos ou atas das reuniões que definem promoções no quadro especial. Também questionou o peso desigual dado a determinados tipos de missão no exterior, que influenciam a pontuação dos candidatos à medida que avançam na carreira.

Procurado, o MRE afirmou que “não comenta processos judiciais em curso”.

Itamaraty atribui desigualdade à estrutura da carreira e aponta ações afirmativas

Em nota ao Brasil de Fato, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que a baixa representatividade de pessoas negras em cargos de comando e nas classes superiores da diplomacia é consequência da própria estrutura da carreira. Segundo a pasta, o quadro do MRE é composto “quase exclusivamente” por servidores concursados, em uma carreira de Estado com progressão lenta e estrutura hierarquizada. Isso limitaria, segundo o ministério, a adoção de medidas de correção com efeitos imediatos.

A resposta também afirma que a relação entre classe ocupada e possibilidade de exercer funções de liderança contribui para que a desigualdade racial permaneça ao longo do tempo. “As características próprias da carreira diplomática dificultam intervenções de efeito imediato, como os números mencionados demonstram”, diz o texto.

Ainda segundo o MRE, os processos de promoção seguem critérios definidos pela Lei nº 11.440, de 2006, e pelo Decreto nº 6.559, de 2008. A pasta ressaltou que, por norma, os trabalhos da Comissão de Promoções e das Câmaras de Avaliação têm caráter sigiloso.

Ministério lista ações afirmativas, mas não define metas ou prazos

O Itamaraty informou, ainda, que adota políticas de promoção da diversidade racial desde 2002, quando criou o Programa de Ação Afirmativa com concessão de bolsas de estudo para pessoas negras candidatas ao concurso de admissão à carreira de diplomata. Segundo o ministério, 78 bolsistas já foram aprovados ao longo de 22 anos. A edição mais recente do programa, de 2025, prevê 53 bolsas: 19 para homens negros, 19 para mulheres negras e 15 destinadas a mulheres negras de baixa renda.

O MRE afirmou ainda que “a promoção da diversidade em seus quadros” é um de seus objetivos estratégicos e citou a criação de um sistema interno de diversidade e inclusão em abril de 2023. Em dezembro de 2024, o ministério também lançou seu Plano de Ação para o Programa Federal de Ações Afirmativas, documento de 49 páginas que reúne princípios, diretrizes e iniciativas voltadas à promoção da equidade étnico-racial e de gênero no serviço exterior.

O plano lista ações já existentes e previstas, como: priorização de pessoas negras em promoções, inclusão em órgãos colegiados internos, reserva de vagas para estágios, promoção da cultura negra na diplomacia cultural, formação de servidores, combate ao racismo no atendimento consular e monitoramento da composição do quadro por meio de boletins estatísticos.

Embora o documento estabeleça compromissos institucionais, ele não apresenta metas numéricas nem prazos concretos para a presença de pessoas negras nos postos de comando. Também não define objetivos específicos para corrigir distorções raciais ao longo da progressão funcional.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

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