Conheça as políticas públicas que abriram os caminhos de ‘O Agente Secreto’ e Kleber Mendonça ao Oscar

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A estrada que levou O Agente Secreto a fazer história com suas quatro indicações ao Oscar (melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor direção de elenco) é longa e pavimentada por uma diversidade de políticas públicas voltadas à cultura em âmbito federal e estadual. O prestígio internacional do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho resulta de uma trajetória criativa construída ao longo de décadas, mas em diálogo com o fortalecimento das políticas públicas de fomento ao audiovisual brasileiro.

O Agente Secreto contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para sua realização. Completando 20 anos desde sua criação neste ano, o fundo é administrado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) enquanto uma categoria do Fundo Nacional de Cultural, vinculado ao Ministério da Cultura. Ele esteve também em outros longas do diretor, como Aquarius (2016), Bacurau(2019) e Retratos Fantasmas (2023).

O FSA é hoje a principal fonte de patrocínio público para a produção audiovisual nacional, alimentando diversas linhas de editais pelo país. É, de certa forma, um fundo autossustentável, uma vez que sua principal fonte de recursos é a arrecadação da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional, o Condecine, principal imposto da indústria cinematográfica no país.

Em outras palavras, a cadeia produtiva do cinema nacional é, ao mesmo tempo, beneficiadora e beneficiária do FSA. Ele também foi de vital importância em um momento crítico para a produção cultural do país, sendo a principal origem dos recursos da Lei Paulo Gustavo, que socorreu o setor durante a pandemia.

De acordo com Mannu Costa, professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e realizadora cultural, o FSA ajudou o surgimento de novos agentes no mercado, também possibilitando experimentações narrativas e estéticas, além de promover uma regionalização por meio dos indutores e por editais específicos para regiões que historicamente estavam em desvantagem competitiva no mercado.

Contudo, ela também aponta certas lacunas que precisam ser superadas para que o fundo atinja plenamente seus potenciais. “Hoje há uma inexistência de uma regularidade no financiamento da comercialização (promoção e distribuição) e o completo desaparecimento dos editais de desenvolvimento”, afirma a professora.

A centralização regional também é um dos aspectos a ser melhor aperfeiçoado. “Quando analisamos o desempenho de produtoras, por exemplo, em determinadas unidades federativas, observamos baixa diversidade de agentes que acessam recursos do FSA em chamadas nacionais. Grande parte do nosso mercado, de Pernambuco, ainda é composto por produtoras de nível 1 e 2 (iniciantes), e apresenta pouca mobilidade de crescimento desses agentes”, explica, apontando ainda que a concentração se dá tanto no volume dos recursos, como na diversidade de agentes”, explica Costa.

Ainda no âmbito federal, a carreira de Kleber Mendonça Filho conta também com investimentos da maior das estatais brasileiras, a Petrobras, por meio de seu programa Petrobras Cultural. O projeto está presente no patrocínio dos longas O Som ao Redor (2012) – que também conta com a política pública federal da Lei do Audiovisual – e Bacurau, além do curta-metragem Recife Frio (2009), talvez o mais popular dos curtas do diretor pernambucano.

O patrocínio cultural da estatal tem mais de quatro décadas, passando por altos e baixos nos valores aplicados. Contudo, seu último edital, lançado em 2024, bateu o recorde da empresa, investindo R$ 250 milhões na cultura brasileira.

Pernambuco em cena

Uma marca constante nos primeiros segundos dos filmes de Kleber Mendonça Filho é a do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura, o Funcultura, instituído em 2002 e administrado pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), órgão do Governo de Pernambuco. Trata-se do principal mecanismo de fomento público ao cinema no âmbito estadual e um dos mais antigos do Nordeste, ganhando uma edição própria para o audiovisual desde 2007. O último edital, lançado no começo deste mês de janeiro, conta com um aporte de cerca de R$ 11 milhões, distribuído entre 14 categorias de produção, distribuição, formação, pesquisa e preservação.

O Funcultura está presente nos longas O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau, assim como nos curtas Eletrodoméstica (2005) e Vinil Verde (2004). Este último, para além de ser um marco na produção de curta-metragem nacional e do cinema de terror brasileiro deste século, é também o responsável pela primeira participação do cineasta no Festival de Cannes, onde se tornaria figura carimbada em uma importante vitrine para seu prestígio internacional.

Enquanto principal mecanismo de fomento público a nível estadual, o Funcultura é constantemente alvo de discussões pela cadeia produtiva local na busca por aperfeiçoamentos. Durante os anos, os debates giram em torno de aspectos como descentralização dos recursos para fomentar a produção do interior do estado, desburocratização e democratização para que se permita a produção de novas vozes que se encontram frequentemente às margens da cena pernambucana consolidada.

A professora Mannu Costa aponta que a participação da sociedade civil foi fundamental para a criação, existência, sustentabilidade e aperfeiçoamento do fundo, inspirando outras políticas regionais pelo país. Um fomento que ela classifica como central na política cultural do estado e responsável por alçar boa parte dos profissionais reconhecidos nacionalmente e globalmente em Pernambuco. Mas também aponta defasagens que precisam ser revistas.

“O Funcultura hoje se demonstra insuficiente para dar conta da demanda local, em termos de recursos, que estão defasados, além de ter se enfraquecido no que tange ao processo seletivo”, elabora a professora sobre os desafios atuais da política. “Quando falo da insuficiência, refiro-me também à necessidade do Estado atuar em outras frentes, como na captação de negócios para os agentes do setor, fomentar a estruturação das empresas locais, identificar lacunas e áreas de sombra na cadeia local e atuar na promoção dos negócios regionais”, complementa.

Voltando às origens, uma outra instituição pública também se liga à produção de Kleber Mendonça Filho: a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também retratada no longa O Agente Secreto. Foi lá onde realizou seus primeiros filmes, os curtas documentais Casa de Imagem e Homem de Projeção, como projeto de conclusão do curso de jornalismo em 1992. Em 2009, a UFPE inaugurava sua graduação de Cinema e Audiovisual. Mannu Costa afirma que a universidade foi definidora para o surgimento de grupos e coletivos que se tornaram grandes representantes do cinema brasileiro a partir dos anos 2000.

“As parcerias começam nesses espaços e seguem pela vida. Também há toda uma geração anterior a essa, que foi contemporânea de Kleber, e mesmo antes, com raízes em suas universidades. Graças às políticas para cotistas (social, racial, PCDs), a universidade pública vem se diversificando, mudando a perspectiva das pessoas e forçando uma mudança também no plano institucional e formativo, que exige que nós também nos atualizemos nesse sentido”, conclui Mannu.

 

Fonte: Brasil de Fato

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