Ambientes alimentares: ‘Escolha da comida não é individual, mas sistêmica”, aponta especialista

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Segundo a ONU, mais de 1 bilhão de toneladas de alimentos são desperdiçados todos os anos no mundo. No Brasil, o número também impressiona. Quase 30% de tudo o que é produzido vai parar no lixo. E ao mesmo tempo, quase 25% das famílias brasileiras vivem em algum nível de insegurança alimentar, de acordo com dados do IBGE.

Para a jornalista Flávia Schiochet, do site o joio e o trigo, investigar a comida é ir muito além do prato: é desvendar uma cadeia que começa no campo, passa por poderosos lobbies, por uma logística predatória e por políticas públicas frequentemente cegas ao que realmente alimenta um povo.

“Quando a gente está falando sobre sistemas alimentares, a gente também está falando sobre essas escolhas, escolhas que são sistêmicas e não individuais”, afirma ao BDF Entrevista.

Nesse caminho, um dos principais obstáculos é a opacidade do poder. “O principal desafio é a falta de transparência de como as decisões políticas estão sendo tomadas”, relata Schiochet. Ela cita investigações que revelaram agendas ministeriais repletas de reuniões com representantes de grandes corporações, mas sem qualquer registro público do que foi tratado. “Não existe ata. Quando a gente pergunta pela Lei de Acesso à Informação, não há retorno”.

Para a especialista, uma política pública alimentar eficaz precisa nascer de um entendimento profundo da cultura alimentar local – algo que vai muito além da gastronomia de restaurante. “A gente está muito viciado num olhar gastronômico da comida e pouco em alimentação como direito humano”, critica.

Ela exemplifica com a alimentação escolar. “Se você pega uma solução padrão do que é uma refeição e replica em todos os territórios sem considerar o que aquelas pessoas comem, com o que se identificam, vai gerar um estranhamento e não vai funcionar.”

O caso da crise Yanomami é emblemático: a entrega emergencial de cestas básicas padrão, desconectadas da cultura local, mostrou a falha de um planejamento que não considera as diversidades alimentares do país.

Esse descompasso está diretamente ligado ao que os especialistas chamam de “ambientes alimentares”. “Eles não são naturais, são construídos”, explica Schiochet. São as escolhas – políticas e comerciais – que determinam se um bairro terá uma feira de produtos frescos ou só um minimercado com ultraprocessados; se o salgadinho estará na altura dos olhos das crianças e o brócolis estará escondido e caro.

O acesso à alimentação saudável é diretamente influenciado pelo lugar onde se mora, pela disponibilidade e pelo preço dos alimentos in natura – uma conveniência que é construída para alguns e negada a outros. “Comer é um ato geográfico e o CEP é o maior determinante social da saúde”, cita.

Nessa geografia desigual, os ultraprocessados avançam como uma conveniência onipresente e sedutora. A indústria investe pesado em publicidade, personagens infantis e em uma engenharia que combina sal, açúcar e gordura para criar produtos quase irresistíveis, enquanto alimentos frescos competem em desvantagem.

Além disso, nenhuma discussão sobre alimentação saudável no Brasil escapa do tema dos agrotóxicos. O país é o maior consumidor mundial desses produtos, um volume impulsionado principalmente pela produção de commodities para exportação. A recente aprovação do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara) é vista por Schiochet como uma conquista da sociedade civil que, no entanto, vive sob tensão constante.

“Enquanto se discute a redução, do outro lado a indústria química e o agronegócio disputam a regulação de bioinsumos e a própria lei dos agrotóxicos, sem transparência”, alerta. Para ela, é uma contradição insustentável falar em combater a fome e, ao mesmo tempo, manter isenções fiscais para o setor de agrotóxicos.

“Quem conseguiu a promulgação do Pronara é porque se permitiu ser otimista, não se derrubar por esse lobby todo. A gente precisa ter esperança de que vai conseguir frear de alguma maneira”.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo.

 

Fonte: Brasil de Fato

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