Conheça a arpillaria, técnica latino-americana de arte e luta que agora ocupa museus pelo mundo

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Linhas, retalhos e tecidos compõem a base da arpillaria, técnica têxtil criada no Chile que transformou o bordado em denúncia, memória e expressão política na América Latina. O termo arpillera, de origem da língua espanhola, refere-se à juta, ou serrapilheira, fibra natural rústica retirada de sacos de farinha ou batata e usada como suporte para costurar histórias de vida, denúncias e resistências. Nas mãos de mulheres latino-americanas, a técnica se tornou uma forma de dar visibilidade a vozes frequentemente silenciadas. Nesta edição, o Bem Viver, programa do Brasil de Fato, celebra a força da luta das mulheres e conta a história das Arpilleras que resistiram à ditadura militar chilena e hoje atravessam fronteiras com bordados, retalhos e muita memória.

A difusão da arpillaria está ligada à multiartista chilena Violeta Parra. Em 1958, enquanto se recuperava de uma hepatite, ela começou a bordar de forma intuitiva. Chamava suas obras de “canções que se pintam” e usava o bordado para retratar a vida popular e as injustiças sociais.

A questão indígena ocupava lugar central nessa produção. Violeta utilizava suas arpilleras para denunciar os maus-tratos e a violência dos conquistadores contra o povo Mapuche. Em 1964, tornou-se a primeira artista latino-americana a realizar uma exposição individual no Museu do Louvre, em Paris.

Depois da morte de Parra, mulheres chilenas retomaram a técnica para denunciar as atrocidades da ditadura de Augusto Pinochet. Em um contexto de censura extrema, passaram a bordar com retalhos de roupas de parentes desaparecidos, transformando a dor em denúncia e busca por justiça. Muitas peças traziam, na parte de trás, um bolso costurado onde eram escondidas cartas com a história real por trás da imagem bordada.

No Brasil, a tradição foi incorporada em 2013 pelo Coletivo de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Desde então, mais de mil mulheres participaram de oficinas em que a arpillaria é usada para narrar violações de direitos humanos. O processo é coletivo e transforma o bordado em um espaço em que todas são, ao mesmo tempo, mestras e aprendizes.

A trajetória de Lucielle Viana, arpillera e militante do MAB em Itaituba (PA), ajuda a entender a força dessa prática na Amazônia. Vinda de uma família de militantes das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ela cresceu, como diz, “amando a luta”. Em sua região, enfrentou o projeto hidrelétrico de São Luiz do Tapajós, que seria maior que Belo Monte, mas foi suspenso após intensa mobilização popular e indígena.

Hoje, Lucielle vive no distrito de Miritituba, área transformada pela chamada rota da soja e pelo maior complexo portuário da região. Ali, mais de mil carretas circulam por dia, alterando a rotina das comunidades e ampliando os riscos de acidentes. Outros megaprojetos, como a Ferrogrão, ameaçam dividir comunidades e destruir territórios em nome do lucro do capital. Este é o contexto em que ela milita e busca organizar outra companheiras para a luta me defesa do território.

Para Lucielle, a arpillaria permite que as mulheres expressem sua leitura sobre esses impactos em espaços onde, em geral, os homens têm mais voz. O bordado, nesse sentido, também funciona como ferramenta de elaboração coletiva da experiência vivida pelas comunidades atingidas. Como define Lucielle, “nem luta sem arte, nem arte sem luta”. Na arpillaria, o bordado segue costurando dor, superação e identidade das comunidades atingidas.

Memória e preservação

O trabalho com a arpillaria também passou a ser pensado como política de memória. Depois da experiência de expor no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), as mulheres do MAB aprenderam técnicas profissionais de conservação para evitar a deterioração dos materiais. O movimento agora constrói um acervo virtual para ampliar o alcance dessas histórias bordadas.

E tem mais…

O Bem Viver especial celebra a força e luta das mulheres com uma reportagem cheia de raízes e ancestralidade da maranhense Maria Firmina dos Reis, a primeira escritora romancista do Brasil.

Tem uma receita saudável e deliciosa que a nossa chef Gema Soto preparou no Comida de Verdade: um rocambole de vegetais de dar água na boca.

Transição energética pra quem? Conversamos com Tatiana Paulino, do Movimento Atingidos por Barragens, o MAB, para falar desse assunto tão atual e importante.

E também tem saudação. O Coletivo “Nós, Carolinas” manda um alô e fala da importância da luta contra o racismo estrutural.

Quando e onde assistir?

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Na TVT: sábado às 13h; com reprise domingo às 6h30 e terça-feira às 20h no canal 44.1 – sinal digital HD aberto na Grande São Paulo e canal 512 NET HD-ABC.

Na TV Brasil (EBC), sexta-feira às 6h30.

Na TVE Bahia: sábado às 12h30, com reprise quinta-feira às 7h30, no canal 30 (7.1 no aparelho) do sinal digital.

Na TVCom Maceió: sábado às 10h30, com reprise domingo às 10h, no canal 12 da NET.

Na TV Floripa: sábado às 13h30, reprises ao longo da programação, no canal 12 da NET.

Na TVU Recife: sábados às 12h30, com reprise terça-feira às 21h, no canal 40 UHF digital.

Na UnBTV: sextas-feiras às 10h30 e 16h30, em Brasília no Canal 15 da NET.

TV UFMA Maranhão: quinta-feira às 10h40, no canal aberto 16.1, Sky 316, TVN 16 e Claro 17.

Sintonize

No rádio, o programa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h às 8h, com reprise aos domingos, às 10h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. Além de ser transmitido pela Rádio Agência Brasil de Fato.

O programa conta também com uma versão especial em podcast, o Conversa Bem Viver, transmitido pelas plataformas Spotify, Google Podcasts, iTunes, Pocket Casts e Deezer.

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