Por que, em 2026, ainda é necessário debater e lutar pela presença de meninas e mulheres na ciência? Para Cristina Araripe, coordenadora nacional da área de divulgação científica da Fiocruz, a resposta é ao mesmo tempo simples e devastadora: os obstáculos continuam imensos e estruturais.
“Primeiro, apenas um terço das mulheres e meninas no mundo concluem a educação básica. Dois terços sequer conseguem chegar lá. Isso é um número gigantesco”, afirmou ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato. Sem acesso à educação, não há sonho – e muito menos carreira científica. Para as que vencem essa primeira barreira, inicia-se outra batalha: anos e anos de estudo, dedicação e enfrentamento diário ao patriarcado, à misoginia, ao machismo e, sobretudo, ao racismo estrutural.
“Nós, mulheres, somos maioria na sociedade, mas a maioria sequer teve o direito de sonhar em ingressar numa universidade, quanto mais seguir a carreira de pesquisadora ou cientista”, acrescentou.
Em 2022, a Fiocruz lançou um dossiê temático coordenado por Araripe, que reuniu depoimentos de mulheres cientistas que lideraram pesquisas fundamentais durante a pandemia, como Margareth Dalcolmo e Marilda Siqueira, além de vozes de pesquisadoras indígenas e antropólogas que denunciaram o abandono das comunidades originárias.
“O dossiê foi um balanço do que vivemos até ali e um chamado à ação. Falava das iniciativas que estavam começando, como ‘Meninas Negras na Ciência’ e ‘Mais Meninas Baianas na Ciência’”, recordou. Passados quatro anos, o diagnóstico é desanimador: “Infelizmente, muito pouca coisa mudou. A gente precisa continuar falando sobre isso nas rádios, nas TVs, onde quer que nós, mulheres, estejamos”.
Ainda assim, Araripe traz uma boa nova. Em 2025, a Fiocruz, com apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e do CNPq, foi contemplada com um projeto ambicioso: a Rede Nacional de STEM na Saúde. STEM é o acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática, áreas historicamente dominadas por homens. O subtítulo da iniciativa é explícito: “Promoção da equidade de gênero na ciência, na tecnologia e na inovação”.
A rede, segundo a coordenadora, é uma resposta à pressão legítima da juventude. “O protagonismo feminino, nesse caso, envolve sobretudo as jovens. Elas têm pressa, e a gente precisa ouvi-las e criar condições reais para que ocupem todos os espaços”, defendeu.
Araripe lembrou ainda que 2018 marcou a eleição da primeira mulher presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, que depois se tornaria ministra da Saúde e do Desenvolvimento Social do governo Lula. Foi nesse ambiente de expectativa que o programa de mulheres e meninas na ciência da fundação começou a tomar forma. Em 2019, foi interrompido pela pandemia.
A data instituída pela ONU em 22 de dezembro de 2015 é, para a pesquisadora, um lembrete anual de que a luta está longe do fim. “A gente celebra, mas sobretudo denuncia. O Brasil é um país com muitas desigualdades. E a ciência ainda é um território minado para meninas negras, indígenas, periféricas.”
“O lugar de mulher não é só onde ela quiser. É também nos laboratórios, nas universidades, nos centros de pesquisa, nas academias de ciência. Por que não?”. conclui Araripe.
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Fonte: Brasil de Fato