Pesquisadores da Unifesp identificam sala do DOI-Codi, na qual a morte de Vladimir Herzog foi simulada

0

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificaram o local exato onde a ditadura militar realizou a simulação da morte do jornalista Vladimir Herzog. Herzog foi torturado e assassinado em 25 de outubro de 1975, no Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), na Vila Mariana, em São Paulo, durante a ditadura militar.

O regime tentou forjar um suicídio, mas o crime foi desmascarado, fazendo com que a sua morte se tornasse um marco na luta pela redemocratização. Ele foi reconhecido como vítima de crime de Estado, com retificação de sua certidão de óbito em 2013. De acordo com informações divulgadas pelo Fantástico, o ambiente está situado no prédio que abrigou o DOI-Codi.

O espaço foi o cenário da fotografia, produzida em outubro de 1975, que sustentou a versão oficial de suicídio por quase cinco décadas. A identificação ocorreu por meio de uma análise estrutural que comparou vestígios físicos atuais com os registros fotográficos da época.

Segundo o programa Fantástico, da TV Globo, a equipe de especialistas encontrou correspondências entre as marcas nas paredes e a estrutura da grade da janela que aparece na imagem histórica.

Conforme relatado pelo programa, o jornalista havia se apresentado voluntariamente ao órgão no dia 25 de outubro de 1975 para prestar esclarecimentos sobre suas atividades profissionais e políticas.

O processo de localização do ambiente enfrentou dificuldades devido às reformas realizadas no edifício a partir da década de 1980, quando o imóvel passou a ser utilizado pelo Instituto de Criminalística. Elementos originais foram cobertos por camadas de tinta, azulejos e novos pisos.

Deborah Neves, coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi, afirmou ao programa que “alguns elementos já indicam isso, como esses balcões revestidos com azulejo e o piso vinílico, a cobertura com esse piso vinílico são alterações produzidas provavelmente a partir do ano de 1985”.

Durante as prospecções nas paredes do antigo centro de detenção, os pesquisadores utilizaram métodos de percussão para identificar vãos e alterações na alvenaria. De acordo com o que foi exibido pelo Fantástico, o som oco emitido por uma das paredes permitiu a descoberta de uma área que havia sido isolada por reformas posteriores.

Neves explicou à reportagem que “trazer luz para esse acontecimento é dar voz também a outras tantas pessoas que também foram presas, torturadas, sequestradas e tiveram seus direitos violados aqui nesse edifício”.

A investigação técnica detalhou que o piso de madeira original, visível na foto da simulação, permanece preservado sob o revestimento vinílico instalado anos depois. “Alguns elementos já indicam isso, como esses balcões revestidos com azulejo e o piso vinílico, a cobertura com esse piso vinílico são alterações produzidas provavelmente a partir do ano de 1985”, disse Deborah Neves.

Segundo o Fantástico, os peritos também localizaram as dobradiças originais da porta e vestígios da caixa de ferrolho, que coincidem com os padrões de construção das salas de interrogatório da década de 1970.

A janela com blocos de vidro e a grade metálica, elementos centrais da montagem fotográfica, também serviram como pontos de referência para a confirmação pericial.

O trabalho de campo também resultou na localização de inscrições feitas por ex-detentos em outras alas do prédio. Marcas de contagem de dias foram encontradas sob camadas de reboco, indicando o período de permanência de prisioneiros políticos no local.

O estudo da Unifesp aponta que a sala da simulação servia como uma cela de isolamento antes de ser utilizada para a produção da prova forjada apresentada pelo Exército à época.

A repercussão da descoberta mobilizou o Instituto Vladimir Herzog e familiares do jornalista, que defendem a preservação integral do local.

O edifício da Rua Tutóia ainda funciona como uma delegacia de polícia, embora partes da estrutura tenham sido tombadas por órgãos de patrimônio histórico em 2014. Atualmente ativistas lutam para que o local vire um Memorial.

A identificação técnica da sala reforça as evidências de que a cena do enforcamento foi montada após o óbito de Herzog, ocorrido em decorrência de agressões físicas durante o interrogatório.

A investigação também coletou depoimentos de outros profissionais que estiveram presos no DOI-Codi no mesmo período. Conforme reportado pelo Fantástico, esses relatos descrevem a disposição interna do prédio e a rotina de movimentação de presos entre as salas de interrogatório e as celas de custódia.

A convergência entre os depoimentos e os achados físicos permitiu que a equipe estabelecesse o trajeto percorrido pelo jornalista desde sua entrada no edifício até o local onde seu corpo foi fotografado. “Claramente não é uma cena de suicídio, e sim uma cena que foi forjada para ocultar uma morte que aconteceu em decorrência das torturas”, afirmou Deborah Neves.

“Considerando as informações documentais e cruzando com essas análises físicas, eu considero suficiente a comprovação da hipótese de que a encenação foi feita nessa sala”, afirmou o arquiteto responsável pelo estudo.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

Comments are closed.