Primeira faculdade do MST é credenciada pelo Ministério da Educação no Rio Grande do Sul

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A educação no campo brasileiro alcançou um novo patamar neste início de 2026 com o credenciamento oficialmente da Faculdade Josué de Castro. Instalada no assentamento Filhos de Sepé, no município de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, a instituição passa a integrar formalmente o sistema federal de ensino superior, consolidando uma experiência educacional construída ao longo de mais de quatro décadas por trabalhadores rurais organizados.

Para o coordenador geral do Instituto de Educação Josué de Castro (IEJC), Miguel Stédile, o credenciamento representa o reconhecimento de um acúmulo histórico que ultrapassa a dimensão administrativa. Segundo ele, essa conquista da faculdade é resultado do acúmulo histórico do MST nesses 42 anos, tanto do ponto de vista político e organizativo, mas também do ponto de vista pedagógico. A leitura do dirigente é de que a institucionalização não inaugura uma experiência, mas confere legitimidade estatal a um projeto educativo já enraizado nos territórios da reforma agrária.

Uma construção de quatro décadas

A Faculdade Josué de Castro surge como desdobramento do Instituto de Educação Josué de Castro, criado em 1995 com o objetivo de ofertar ensino médio e formação técnica a jovens e adultos oriundos de assentamentos, acampamentos e organizações populares do campo e da cidade. Desde então, o IEJC acumulou experiências pedagógicas baseadas na articulação entre educação, trabalho e organização coletiva, além de parcerias com universidades públicas para a oferta de cursos superiores.

O credenciamento da faculdade, no entanto, inaugura uma nova etapa ao garantir autonomia administrativa e pedagógica para a oferta direta de cursos de graduação. Miguel Stédile destaca que essa mudança amplia a capacidade de formação do movimento. “Essa faculdade materializa tudo que o MST acumulou nas escolas itinerantes, nas escolas de assentamento, na pedagogia sem terra, na utilização de métodos com a pedagogia da alternância.”

Segundo ele, a faculdade materializa o acúmulo do MST no ensino superior, que até então vinha sendo feito em parceria com outras instituições de ensino superior, mas concede maior autonomia para que o movimento tenha a capacidade de ofertar mais turmas e ampliar o acesso.

Tecnólogo em Gestão

O primeiro curso autorizado pela nova instituição é o tecnólogo em Gestão de Cooperativas, voltado à administração de empreendimentos coletivos e iniciativas da economia solidária. Miguel Stédile afirma que “nosso primeiro curso será o tecnólogo em gestão de cooperativas, muito vinculado às empresas sociais, às cooperativas da reforma agrária, mas ao conjunto de empreendimentos sociais, como, por exemplo, as cozinhas comunitárias”.

Ciência a serviço da classe trabalhadora

A produção de conhecimento na Faculdade Josué de Castro estará orientada para enfrentar problemas concretos vivenciados pelos trabalhadores do campo. A proposta é articular ensino, pesquisa e extensão a partir das demandas reais dos territórios da reforma agrária. Miguel Stédile avalia que o impacto da instituição será amplo e duradouro. Segundo ele, a faculdade “vai estar à disposição desse conjunto da classe e, consequentemente, vai lidar com os problemas desta realidade e vai produzir ciência, vai produzir conhecimento para superar esses desafios, que retornarão como conhecimento e como prática para esses territórios, em especial para as áreas de reforma agrária”.

Na avaliação do dirigente, o alcance da iniciativa extrapola os limites regionais. Ele afirma que o impacto será “gigantesco a partir do momento que você tem uma instituição exclusivamente dedicada ao ensino, à pesquisa e à extensão para as demandas dos trabalhadores e trabalhadoras, não só do Rio Grande do Sul, não só do Brasil, mas especialmente dos camponeses de todo o país”.

Fronteiras da solidariedade internacional

Além de seu papel no contexto nacional, a Faculdade Josué de Castro projeta uma atuação internacionalista, articulada às experiências de outros povos em luta. A autonomia institucional permite a oferta de cursos e processos formativos voltados a jovens de países que enfrentam crises sociais, políticas ou humanitárias. Miguel Stédile afirma que o projeto educativo dialoga com a realidade das organizações populares em escala global. “O ensino superior que vai ser ofertado é um ensino que dialoga com a realidade não apenas das famílias acampadas e assentadas, mas de todas as organizações populares da classe trabalhadora, não apenas do Brasil.”

O coordenador acrescenta que a instituição está aberta à formação de jovens de diferentes países. Segundo ele, a faculdade está à disposição para a escolarização da juventude em Gaza, para a juventude no Haiti, para a juventude na Venezuela, para a juventude na Argentina. “Ela vai contribuir a partir da realidade, a partir da vivência dos nossos educandos e educandas e dos nossos educadores e educadoras, que também vão fazer parte do nosso quadro a partir dessa experiência de uma pedagogia emancipadora.”

Com o credenciamento oficial, a Faculdade Josué de Castro consolida-se como um espaço institucionalizado de produção de saber vinculado à vida coletiva e à organização dos trabalhadores. A conquista reafirma a educação como um direito e como uma ferramenta estratégica para a construção de alternativas econômicas, sociais e políticas no campo brasileiro, baseadas na cooperação, na autogestão e na justiça social.

 

Fonte: Brasil de Fato

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