Região atingida pela mineração em Minas Gerais é transformada com plantio de árvores do MST

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Desde 2020, o Movimento Sem Terra (MST) plantou mais de 45 milhões de árvores, como parte do plano “Plantar árvores, colher alimentos saudáveis. O balanço foi apresentado durante o 14º Encontro Nacional do MST, que ocorre entre os dias 19 e 23 de janeiro, em Salvador (BA).

Fátima Vieira é da coordenação do Programa Popular de Agroecologia, que vem sendo implementado na região do Rio Doce, região leste de Minas Gerais, atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em 2015.

Essa área é considerada uma das prioridades do plano de plantio de árvores, como forma de devolver às comunidades a capacidade de produzir com segurança e harmonia com a natureza.

“A gente teve vários assentamentos atingidos diretamente, e o movimento traz a perspectiva, então, diante do acordo [de reparação], firmado entre as instituições de justiça e a fundação criada para fazer toda a gestão dos recursos do pagamento do crime pelas empresas, a Vale, a Samarco e a BHP”, conta Fátima.

Ela explica que o trabalho do MST na região tem transformado a matriz produtiva, baseada fundamentalmente em uma produção pecuária “atrasada”. Hoje, os assentamentos do Rio Doce tem produzido uma variedade de produtos nunca antes vista. Em um primeiro momento, conta a militante, os assentados trabalharam com o conceito dos quintais produtivos, voltados sobretudo para a subsistência das famílias sem terra.

Hoje, os assentamentos da região tem construído estruturas de pomares, para a produção de frutas, e já contam com uma agroindústria de beneficiamento de polpas, garantindo assim uma maior entrada de renda para os agricultores.

Fátima aponta que o projeto de restauração florestal já conta com mais de 2 mil hectares de terras na região do Rio Doce, envolvendo diretamente seis assentamentos.

“Toda a renda, todo o recurso que é destinado ao pagamento desses serviços são realizados pelas próprias famílias nessa ideia da geração de renda e de agir na contradição do crime”, afirma.

“O desafio que a gente enfrenta hoje, não só na região do Rio Doce, mas no estado [de MG]como um todo é a luta contra o modelo da mineração. Então para nós, o programa vem para contrapor, para fazer a denúncia, fazer a denúncia do modelo, fazer a denúncia da destruição dos territórios. Portanto, esse é uma luta constante, e a gente contrapor esse modelo de mineração, é mostrar que a reforma agrária é a saída”, aponta Fátima.

Além da transformação da natureza e da restauração do meio ambiente, a vida dos agricultores, atingidos por uma das maiores tragédias criminosas da mineração no mundo, volta a ter sentido.

“O que mais a gente se percebe é a felicidade de olhar as áreas sendo restauradas, locais que não se tinha água, e as famílias contam: ‘olha lá no meu lote está brotando a água de novo, a nascente, algumas espécies de passarinhos, de animais. Então é essa alegria que as famílias têm de visualizar, com tão pouco tempo, esses resultados”, finaliza.

Meta ousada

Camilo Santana, da coordenação nacional do plano, explica que a meta do movimento é plantar 100 milhões de árvores até 2030, e que o objetivo do projeto é muito mais do que apenas reflorestar.

“Para além do número do plantio das árvores, nossa proposta é que, com essas ações em torno do plantio de árvore, do cuidado com o meio ambiente, a gente consiga mobilizar a nossa base e o conjunto da sociedade para debater, para refletir, para formular sobre uma concepção popular sobre a questão ambiental e também sobre as alternativas que o próprio povo, e o povo do campo, em especial, propõe para o enfrentamento da crise ambiental. Tendo em vista que as alternativas propostas pelo sistema capitalista, pelos bancos, são alternativas que vão resolver o problema da crise econômica do capitalismo, mas, por outro lado, mantém e reforça os problemas ambientais”, explica o militante.

“A principal centralidade do plano nacional de plantar árvores e produzir alimentos saudáveis é a construção e a massificação da agroecologia”, completa.

Camilo conta que os 45 milhões de árvores plantadas estão espalhadas por quase todos os estados do país, e que todo o processo é construído obedecendo às características nativas dos biomas e transformando a realidade de assentados e acampados da reforma agrária. Ele agrega que, com isso, o MST pretende construir uma cultura de cuidado com o meio ambiente, aliada à produção de alimentos saudáveis.

“A gente quer criar uma cultura política de cuidado ambiental, e provocar o debate sobre o meio ambiente aliado com a produção de alimento, com o tema da reforma agrária que é central. Não se cuida do meio ambiente, não se resolve o problema da questão ambiental, se não resolver o problema da concentração de terra”, aponta o militante.

 

Fonte: Brasil de Fato

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