Em ano de Campanha Nacional da categoria bancária, novas reivindicações surgem e outras se repetem, mas com mais solidez e propriedade, como o recorte de gênero quando se fala em igualdade salarial.
“A lei da Igualdade Salarial existe desde 2023, mas para que ela seja de fato efetiva, precisamos cobrar, pois no papel ela é linda, mas na prática, a realidade é outra: as mulheres no setor bancário recebem, em média, 80,9% dos salários dos homens, ou seja, remuneração cerca de 19,1% inferior em relação à remuneração dos colegas”, destaca a presidenta do Sindicato, Tatiana Oliveira.
É o que revela levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados estatísticos de 2023 da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Considerando a série histórica, no período de 2001 até 2023, o Dieese divulgou ainda que houve pouca evolução para o fim da desigualdade salarial entre mulheres e homens: em 2001, elas recebiam, em média, 78,3% da remuneração paga aos homens do setor. Em outras palavras, tinham o salário 21,7% menor em relação aos homens bancários.
“É nesse contexto que os sindicatos têm papel vital em acompanhar a aplicabilidade da lei de igualdade salarial, indo para as mesas de negociação com dados que corroborem a reivindicação”, afirma a especialista em economia do trabalho e sindicalismo, Janaína Meazza.
Com o tema “Igualdade salarial de gênero: avanços e limites”, a assessora da CUT Brasil palestrou de forma virtual para trabalhadores e trabalhadoras de várias categorias do país, na quarta-feira (21), a maioria bancários e bancárias.
O bate-papo foi um resumo dos principais destaques da monografia apresentada ao Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas no ano passado, “Entre o direito e a realidade: a Lei da Igualdade Salarial e os desafios da justiça de gênero no trabalho”.
Para Janaina, “a hipótese inicial que norteou a pesquisa foi confirmada: embora a lei represente um avanço normativo e político importante, seu alcance prático ainda é limitado diante das estruturas patriarcais e capitalistas que moldam a organização social do trabalho. A desigualdade salarial entre homens e mulheres, persistente mesmo após décadas de legislações e políticas de igualdade, não é um acidente nem um resquício do passado; é parte constitutiva do modo de funcionamento da economia e das relações sociais de gênero”, defende.
E são em espaço de debate como os de ontem, em que os homens se façam presentes e procurem estudar, ler e aprender, assim como as mulheres fazem, que essas estruturas patriarcais podem começar a ruir.
Janaína Meazza acredita que as tarefas domésticas compartilhadas e a própria tecnologia são mecanismos que contribuem para que a mulher possa disputar e ocupar cargos do alto escalão com os mesmo salários pagos aos homens, pois o mercado de trabalho valoriza a jornada de trabalho de fato, a disponibilidade do trabalhador e da trabalhadora no local de trabalho.
A bancária da Caixa em Xinguara, Danielle Santos, que participou da palestra, fez a seguinte reflexão. “Acho muito importante que os homens se façam presentes, busquem aprender sem ficar esperando que a gente ensine. A mulher está estudando mais, tendo menos filhos, mas está morrendo mais; até que ponto esses fatores se ligam e se correlacionam?”
“Os resultados da minha monografia demonstram que, embora a Lei nº 14.611/2023 represente um avanço normativo e político importante, sua eficácia depende de políticas complementares voltadas à redistribuição do tempo, à valorização dos trabalhos de cuidado e ao fortalecimento das ações sindicais e de fiscalização. O estudo conclui que a igualdade salarial requer não apenas mecanismos de transparência, mas também transformações culturais e estruturais que promovam a autonomia econômica das mulheres e a revalorização social do trabalho feminino como condição essencial para a justiça social e de gênero”, revelou a especialista.
A atividade faz parte de um ciclo de debates virtuais que o Sindicato irá promover ao longo de 2026. “Esse foi o primeiro de muitos que teremos neste ano. Em março, vamos realizar uma palestra com foco nas mães de crianças atípicas, porque enxergamos que há muitos pontos a avançar para este público, especialmente na nossa categoria”, explica a diretora de mulheres da entidade sindical, Salete Gomes.
Fonte: Bancários PA