Povos indígenas marcham em Brasília para exigir demarcação de terras ao governo brasileiro

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Indígenas de diversos povos e territórios do Brasil percorreram o Eixo Monumental em Brasília até o Congresso Nacional em uma marcha organizada pelo Acampamento Terra Livre (ATL) na tarde desta quinta-feira (9) sob o lema Demarca, Lula! Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida.

O ATL acontece desde o último domingo (5) e reúne comunidades indígenas de todo o país para reforçar reivindicações históricas, como a demarcação de terras, proteção ambiental e garantia de direitos sociais. Durante o ato, a Articulação de Povos Indígenas (Apib) entregou uma carta de reivindicações ao Poder Executivo no Ministério de Minas e Energia e na Secretaria-Geral da presidência da República.

De acordo com os organizadores, a política indigenista é marcada por desafios desde a invasão dos portugueses ao território hoje chamado de Brasil. Nesse sentido, o ato vem reafirmar a resistência e o protagonismo dos povos originários que aqui residem antes da chegada da coroa.

A principal pauta da marcha foi a demarcação de Terras Indígenas (TIs), considerada pelos participantes como a base para a preservação cultural, ambiental e social. Para Lilian Eloy, do povo Terena e coordenadora de mulheres pela Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste (Arpin), a garantia territorial está diretamente ligada à sobrevivência de suas comunidades.

Ela destacou que, apesar de avanços pontuais no governo atual, muitos territórios ainda aguardam reconhecimento. “A demarcação de terra para nós é muito importante, é por isso que nós estamos aqui reivindicando os nossos direitos como originários dessa terra, povos originários dessa terra. Pedimos ao presidente Lula que dê um olhar um pouquinho mais com atenção, porque precisamos que os nossos territórios sejam demarcados.”

Lilian também chamou atenção para a situação do interior de São Paulo, onde comunidades enfrentam conflitos e ameaças por territórios ainda não reconhecidos oficialmente. Segundo ela, a falta de demarcação compromete o direito à educação, saúde, alimentação e à vivência cultural sem medo.

Resistência e disputa territorial

Do Território Encantado, Baixo Tapajós, Eladio Tupayu relatou a longa batalha por reconhecimento de seu território, que recentemente foi ameaçado pelo decreto nº 12.600/2025 que pretendia privatizar os rios da Amazônia. “O nosso território está há 13 anos nessa peleja por demarcação de terra. A gente espera que o presidente possa estar ouvindo a gente”, afirmou, acrescentando as dificuldades de acesso ao ATL e obstáculos na comunicação com autoridades.

Já no Cerrado mato-grossense, Cacique José Maria, da Aldeia São Marcos, do povo Xavante, destacou a vulnerabilidade das terras indígenas diante de grandes projetos de exploração. Segundo ele, construções de usinas hidrelétricas e ferrovias ameaçam os rios e a biodiversidade do Cerrado.

“O Cerrado é o ponto da vida, não ameaça ninguém, mas está sendo prejudicado pelas construções. As áreas indígenas Xavante estão sendo atingidas e não sei qual é o interesse, porque o interesse de exploração não é para o bem do Brasil”, refletiu.

O cacique ressaltou que a resistência indígena não é apenas simbólica: “O povo Xavante está pronto, está vivo, pronto para defender o Cerrado. A terra sempre teve dono, que somos nós, mas com humildade recebemos quem chegou no passado. Hoje, porém, somos humilhados e discriminados pelos brancos. Isso é para vivermos com dignidade e dar um basta às violações dos nossos direitos”, afirmou.

Territórios e justiça climática

Além das questões territoriais, a marcha também abordou temas ambientais e climáticos. Durante toda a articulação, lideranças apresentaram propostas de integração entre proteção territorial e políticas de transição energética, alertando que a destruição de ecossistemas afeta toda a sociedade.

A proposta apresentada pelo movimento indica a criação de “Zonas Livres de Combustíveis Fósseis”, áreas de alta relevância ecológica e cultural, onde a exploração de petróleo, gás e carvão seria proibida. Essa iniciativa tem como objetivo colocar os territórios indígenas como eixos estratégicos para a proteção climática, reforçando o protagonismo das comunidades nessa construção.

Pressão por respostas e entrega de carta ao Executivo

Em marcha, os participantes enfatizaram que a luta por demarcação de terras é inseparável da proteção da cultura, da história e do conhecimento tradicional.

Durante a caminhada, os manifestantes reafirmaram o pedido de diálogo direto com o governo federal. Para Eladio Tupayu, a dificuldade de acesso a autoridades e a repressão de atos pacíficos evidenciam que o Estado ainda não escuta plenamente os povos indígenas. “Viemos para o diálogo, mas só que não está tendo diálogo bom com a gente. Nós viemos reivindicar, mostrar nossa situação, e não apenas sermos impedidos de entrar ou exercer nossos direitos.”

Além das reivindicações apresentadas durante a marcha, a carta da Apib ao governo brasileiro reforça que o movimento indígena segue em mobilização permanente em Brasília para influenciar os rumos das políticas públicas e garantir o cumprimento de direitos constitucionais.

O documento destaca a participação ativa do movimento indígena, afirmando que “o atual governo também foi construído com apoio, presença, incidência e aposta política do movimento indígena”, mas pondera que essa relação precisa se traduzir em resultados concretos na proteção dos territórios.

A Apib reconhece avanços institucionais, como a retomada de políticas públicas e mudanças na estrutura do Executivo, mas ressalta que ainda há um descompasso entre as promessas e a realidade vivida nas comunidades. Nesse sentido, o texto afirma que os avanços “ainda não respondem à urgência histórica nem à dívida do Estado brasileiro com os nossos povos”.

A carta também evidencia a necessidade de ações mais firmes do Estado para conter o conflitos e violações nos territórios indígenas, apontando que esse cenário se manifesta no “aumento de invasão dos territórios, violência e criminalização de povos, lideranças e organizações indígenas”.

Por fim, o documento cobra maior atuação do Executivo diante de pressões políticas contrárias aos direitos indígenas, defendendo que a demarcação de terras seja tratada como prioridade estratégica e como parte central das políticas climáticas e ambientais do país.

 

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