Bradesco avança com desmonte no Pará e coloca bancários e clientes em risco ao retirar portas giratórias e vigilantes

0

O Sindicato dos Bancários do Pará denuncia mais uma prática do Banco Bradesco que ameaça diretamente trabalhadores, trabalhadoras e clientes: a retirada de portas giratórias, a redução da presença de vigilantes e a transformação de agências em chamadas “unidades de negócios”.

Para o Sindicato, a mudança de nomenclatura tem servido como manobra para fragilizar estruturas essenciais de segurança e reduzir custos, deixando bancários e usuários mais expostos a furtos, assaltos, ameaças e outras situações de violência. A medida também integra um processo mais amplo de desmonte promovido pelo banco, com fechamento de agências, enxugamento da estrutura física e eliminação de postos de trabalho.

Na semana passada, o Sindicato esteve em mais de uma unidade do Bradesco, em Belém, onde as portas giratórias já foram retiradas e os vigilantes devem permanecer trabalhando somente até hoje, 30 de junho. A entidade alerta que a transformação de agências em unidades de negócios não pode ocorrer às custas da vida, da integridade física e da saúde mental de bancários, bancárias e clientes.

“Quando o banco retira a porta giratória e os vigilantes, ele não está apenas mudando a estrutura da unidade. Ele está colocando trabalhadores, trabalhadoras e clientes em risco. Segurança bancária não é detalhe, é proteção da vida”, afirma Heládia Carvalho, diretora de Saúde do Sindicato.

Desmonte é alvo de investigação no MPT

A política do Bradesco também é alvo de investigação conduzida pelo Ministério Público do Trabalho da 8ª Região, no Inquérito Civil nº 001462.2025.08.000/8. Segundo o Sindicato, dados reunidos pela entidade apontam que o banco extinguiu 15 agências estruturadas e realizou mais de 200 demissões na base territorial do Pará e Amapá entre janeiro de 2024 e setembro de 2025.

As informações foram levantadas a partir do cruzamento de dados oficiais do Banco Central com Termos de Rescisão do Contrato de Trabalho apresentados pelo Sindicato. Para a entidade, os números comprovam que não se trata de uma simples reorganização interna, mas de uma política de fechamento de unidades, rebaixamento de agências e demissão coletiva sem diálogo efetivo com a representação dos trabalhadores.

A situação se agravou após o Bradesco se recusar a assinar um Termo de Ajustamento de Conduta, o TAC, e pedir o arquivamento das investigações sob a alegação de que as demissões fariam parte de seu chamado “poder diretivo”.

Diante disso, o Sindicato vai cobrar a conclusão do inquérito civil e a adoção das medidas judiciais cabíveis, incluindo a abertura de Ação Civil Pública, o reconhecimento da demissão coletiva ilegal, a responsabilização do banco pelo fechamento dos postos de trabalho e o pagamento de indenização por danos morais coletivos.

Para o Sindicato, a conduta do Bradesco desrespeita o entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal no Tema 638, que estabelece a necessidade de participação sindical prévia nos casos de dispensa em massa de trabalhadores.

“O Bradesco lucra bilhões e quer tratar pais e mães de família como se fossem descartáveis, usando a tecnologia como desculpa para o desemprego. O Supremo Tribunal Federal, por meio do Tema 638, deixou claro que nenhuma demissão em massa pode ocorrer sem a participação prévia do sindicato. O banco ignorou a categoria, ignorou o Sindicato e tentou esconder do MPT o tamanho real desse desmonte”, afirma Tatiana Oliveira, presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará.

Clientes e trabalhadores relatam medo

A insegurança também é sentida por clientes que precisam utilizar os serviços bancários, especialmente os caixas eletrônicos. Em relato ao Sindicato, uma cliente afirmou que se sente vulnerável ao realizar operações na unidade.

“Eu me sinto muito insegura, porque primeiro tiraram os caixas lá de dentro, então a gente já teve que utilizar os caixas eletrônicos aqui na parte de fora, que já é uma situação de vulnerabilidade muito grande. A movimentação do comércio é muito grande, principalmente para quem é lojista, para quem vem fazer depósito. Só o fato de ter saído lá de dentro já deixa a gente à mercê. E tirar agora os guardas e as portas giratórias deixa a gente num estado de vulnerabilidade muito grande”, relatou Keila Luz, cliente e vendedora.

Os relatos de trabalhadores mostram que a retirada dos mecanismos de segurança já tem provocado consequências graves. Na agência Nazaré, também transformada em unidade de negócios, funcionários tiveram celulares e notebook furtados após a retirada da porta giratória.

“Foi retirada a porta giratória e, com isso, aumentou a nossa insegurança dentro do banco. Aconteceram situações lá dentro. Eu fui pegar uma impressão e um senhor furtou meu telefone de cima da mesa. Também teve a situação de um computador que levaram da corretora. Ficou extremamente perigoso para nós, funcionários. A insegurança era absurda”, afirmou uma trabalhadora.

Segundo o relato, o medo passou a fazer parte da rotina.

“A gente morria de medo dentro da agência de ser assaltado, de entrar alguém e fazer a gente de refém. Mas, em relação a isso, o banco nunca tomou uma medida. Muito pelo contrário: fechava os olhos para essa questão da insegurança que os funcionários sofriam”, denunciou.

Em Castanhal, também em uma unidade transformada em unidade de negócios, outro funcionário sofreu furto. Já na unidade da Pedreira, trabalhadores relatam medo constante diante da entrada de pessoas em situação de vulnerabilidade, inclusive usuários de drogas, que abordam, intimidam e ameaçam funcionários e clientes.

Para Eliana Lima, diretora de Formação do Sindicato, o Bradesco está sendo negligente com a segurança de quem trabalha e de quem utiliza os serviços bancários.

“Esses casos mostram que a retirada das portas giratórias e dos vigilantes não é um fato isolado. Faz parte de uma política do Bradesco de fechar agências, rebaixar unidades e enxugar sua estrutura física, sempre colocando o lucro acima da segurança. Quem paga essa conta são os trabalhadores, as trabalhadoras e a população, que passam a ser atendidos em locais mais vulneráveis, com menos proteção e mais medo. O banco precariza as condições de trabalho, fragiliza o atendimento e transfere para bancários e clientes os riscos”, afirma Eliana.

A dirigente também destaca que o impacto da política do banco chega à ponta do atendimento.

“O que estamos vendo em Belém e no interior do estado é um ataque duplo: destrói-se o sustento do bancário e massacra-se o cliente. O banco fecha agências fundamentais, sobrecarrega os trabalhadores que permanecem e empurra a população para canais digitais precários, retirando inclusive portas giratórias e itens básicos de segurança. A nossa base de dados provou o tamanho desse estrago. Agora, o Bradesco quer o arquivamento do processo e diz que tem o direito de demitir assim? Não tem. Nós vamos até o fim para que o banco seja responsabilizado por danos morais coletivos e pelo fechamento irresponsável desses postos de trabalho”, denuncia Eliana.

Mesmo acumulando lucros bilionários, o Bradesco insiste em reduzir postos de trabalho, fechar unidades e fragilizar a segurança. Enquanto isso, bancários e bancárias trabalham com medo de sofrer danos materiais, físicos e psicológicos.

O Sindicato dos Bancários do Pará cobra que o Bradesco mantenha vigilantes, portas giratórias e demais mecanismos de segurança nas unidades de atendimento, além de garantir condições dignas de trabalho e proteção adequada à população.

A entidade reforça que seguirá cobrando o Ministério Público do Trabalho e a Justiça do Trabalho para responsabilizar o Bradesco pelo processo de demissão em massa, fechamento de agências e precarização da segurança.

Comments are closed.