Pará entra para a história com greve bancária: “É a nossa união que vai trazer a vitória”
Estado abre movimento de resistência da categoria após rejeição da proposta da Fenaban; cerca de 7 mil bancários e bancárias cruzaram os braços nesta sexta-feira, 4.
As agências bancárias do Pará amanheceram diferentes nesta sexta-feira, 4 de setembro. Em Belém e no interior, bancários e bancárias iniciaram greve por tempo indeterminado, colocando o estado na linha de frente da mobilização nacional da categoria.
O movimento cobra valorização salarial, proteção à saúde mental, combate ao assédio, defesa do emprego e melhores condições de trabalho para quem sustenta, diariamente, uma das atividades mais lucrativas da economia brasileira.
A presidenta do Sindicato dos Bancários do Pará e empregada da Caixa Econômica Federal, Tatiana Oliveira, afirmou que a mobilização foi construída coletivamente, com forte participação da capital e do interior.
“Hoje é o primeiro dia de greve no Pará. A gente sabe que vários colegas no país vão decretar greve nas assembleias nesta sexta, e esperamos que o nosso movimento seja muito forte para arrancar uma nova proposta para levar à categoria.”
Tatiana também agradeceu o envolvimento dos trabalhadores e trabalhadoras na organização na organização e construção dos piquetes.
“Quero agradecer o engajamento da categoria na capital e no interior, que está não só aderindo ao movimento, mas ajudando a construí-lo: adesivando as agências, dialogando com os colegas e mostrando a importância da nossa mobilização. É a nossa união que traz a nossa força e que vai trazer a nossa vitória.”
Lucros bilionários, demissão, fechamento de agência e uma categoria sob pressão
A Fenaban ofereceu reposição integral da inflação medida pelo INPC, acrescida de 0,6% de aumento real para 2026 e 2027. A proposta abrange salários, vales-alimentação e refeição, auxílio-creche/babá e Participação nos Lucros e Resultados (PLR). O INPC relativo à data-base de 1º de setembro será divulgado no próximo dia 11.
Para a categoria, a proposta não responde à lucratividade do setor financeiro, às metas abusivas, à sobrecarga de trabalho e à redução de empregos e agências.
Só em 2025, Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco e Santander Brasil somaram R$ 124 bilhões em lucro líquido. Em sentido contrário, o setor bancário eliminou mais de 83,5 mil empregos desde 2016 e fechou mais de 8,5 mil agências desde 2015, reduzindo em 37% a sua rede física, segundo os dados das entidades do movimento sindical.
A diretora do Sindicato e bancária do Bradesco, Heládia Carvalho, destacou que a greve denuncia o adoecimento e a pressão sofrida pela categoria.
“Com exceção do Banpará, todos os bancos do estado estão em greve por valorização e respeito. É um grito de resistência para chamar atenção sobre as condições de trabalho, o alto índice de adoecimento mental e os problemas enfrentados pela categoria.”
Com menos unidades e menos funcionários e funcionárias, a cobrança por resultados recai sobre quem permanece nos bancos.
“Esse trabalhador e essa trabalhadora sofrem um assédio moral brutal para vencer as metas e fazer com que os bancos fiquem cada dia mais ricos. É por isso que o sindicato está aqui, apoiando a greve no Bradesco, Itaú, Santander, Banco da Amazônia, Caixa e Banco do Brasil.”
Greve também defende atendimento à população
A redução da rede bancária afeta não apenas o funcionalismo, mas também clientes e usuários. Menos agências e menos pessoal significam filas maiores, atendimento mais difícil e sobrecarga nas unidades que continuam abertas.
O diretor jurídico do Sindicato dos Bancários do Pará e coordenador da Comissão de Organização dos Empregados do Banco da Amazônia, Cristiano Moreno, falou em frente à Agência Belém Centro, onde trabalhou durante anos.
“Essa agência já chegou a ter mais de 120 funcionários. Hoje, a gente vê uma agência que sequer tem cinco funcionários trabalhando. Não tem mais serviço de caixa eletrônico, não tem mais serviço de caixa, não tem mais atendimento.”
Para ele, a mobilização no Banco da Amazônia também representa a defesa do papel público da instituição na região, pois o esvaziamento do quadro de pessoal e da estrutura de atendimento ameaça a missão do Basa como banco de desenvolvimento da Amazônia.
“A nossa greve não é só por direito dos empregados e empregadas do banco, mas é uma greve também em defesa da maior instituição de crédito e de desenvolvimento da região amazônica.”
Banco da Amazônia realiza assembleia nesta sexta
Ainda nesta sexta-feira, os empregados e empregadas do Banco da Amazônia participam de uma assembleia virtual para avaliar a proposta específica apresentada pela direção do banco. A assembleia começa às 16h, e a votação ocorre das 17h às 20h.
A proposta acompanha os índices econômicos oferecidos pela Fenaban e prevê, entre outros pontos, antecipação de PLR, medidas de apoio à saúde financeira, ampliação de vagas em programas de qualidade de vida e capacitação, previsão de concurso público para cadastro de reserva em 2027 e aperfeiçoamento das políticas de combate ao assédio.
Está prevista a antecipação de PLR no valor global de R$ 16,7 milhões, condicionada à aprovação dos acordos. O texto também prevê a possibilidade de suspensão temporária de parcelas de empréstimos consignados, ampliação de vagas nos programas Corredores em Ação e Ver-o-Peso e 430 vagas educacionais em idiomas, graduação e pós-graduação.
Cristiano reforçou que a decisão será da categoria.
“O banco apresentou uma proposta, e ela será avaliada pela categoria. O que a categoria decidir, o Sindicato dos Bancários do Pará vai acompanhar e vai tocar.”
Um recado vindo da Amazônia
A greve chama atenção para uma escolha que os bancos precisam fazer: continuar acumulando lucros enquanto reduzem empregos e pressionam trabalhadores e trabalhadoras, ou reconhecer e valorizar quem produz esses resultados.
O Pará entrou para a história ao iniciar esse movimento com a força de uma categoria que se recusa a aceitar o arrocho, o assédio e a retirada de direitos. Das ruas de Belém ao interior do estado, a mobilização deixou um recado: onde tentam impor silêncio, a categoria responde com união e luta.
Fonte: Bancários PA