(Capítulo extra) Vencemos a covid-19: Amor de mãe para filho, de filha para mãe, foram eternizados, mas deixou saudade

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Márcio Cleber Moreira Leite com a família

“Meus dias sem meu filho estão sendo muito difíceis, um vazio, um pedaço de mim se foi. Meu mundo parece estar sem cor. Uma dor que não se explica. Só tristeza e choro, tentando entender a vontade de Deus”, desabafa emocionada a mãe de Márcio Cleber Moreira Leite, Socorro Leite, funcionária do Sindicato dos Bancários há mais de 10 anos. Ela está em home office desde março.

Márcio Cleber Leite, tinha 40 anos, 23 deles casado, com quem construiu uma família de 3 filhas, no bairro do Tapanã, em Belém. Márcio era hipertenso, mas tinha a pressão controlada.

A mãe dele saiu de casa, onde morava com a filha mais nova, no dia 7 de abril, por fazer parte do grupo de risco (ter mais de 60 anos e hipertensão arterial sistêmica). “Minha filha é enfermeira e em poucos dias fazia parte da linha de frente quando a pandemia chegou à capital. Eles acharam melhor me preservar, me isolar da forma mais segura possível, e eu fui e aqui estou até agora”.

Márcio Cleber Leite começou a apresentar os primeiros sintomas no dia 23 de abril, depois de um chuvisco, teve tosse, mal estar, dor na garganta e sensação de febre.

A família desconfia que uma ida à feira possa ter sido infectado. De acordo com a mãe, os sintomas, que começaram leves, alternavam entre febre alta e baixa. Cinco dias depois começou o tratamento em casa, com azitromicina, ivermectina, dipirona e chá de jambu.

Nesse mesmo período, a outra filha dela, que é enfermeira, testou positivo para a covid-19, e se mudou para a casa do irmão, para cuidarem um do outro. Ah o amor… o amor de mãe, de irmãos, fez parte desse tratamento também.

No feriado, 1º de maio, teve a primeira crise de falta de ar, e foi levado, pelas irmãs, pro Hospital Abelardo Santos, onde foi medicado e mandado de volta pra casa sem qualquer tipo de exame. “Ele comentou que viu cerca de 4 pessoas morrerem do lado dele, nesse dia, e isso o deixou bastante abalado psicologicamente”, lembra Socorro.

No dia 5 foi procurar atendimento ambulatorial na Policlínica, já que a febre não passava, mesmo com toda medicação. Minutos depois de dar entrada, teve piora no quadro de saúde, com muita falta de ar e saturação chegando a 52%. O que era estável virou caso de emergência, e esse tipo de atendimento, não podia ser realizado onde estavam.

Uma das irmãs vendo a gravidade correu pra emergência mais próxima, Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Sacramenta e lá ele foi imediatamente para o oxigênio até conseguirem estabilizar a saturação, por algumas horas.

Ficou internado por 3 dias, na UPA, até ser transferido, no dia 7 de maio, para o Hospital Metropolitano, graças à ajuda de amigos, sendo retirado a própria revelia da Unidade da Sacramenta, já que não havia leito de UTI disponível pra ele.

No Metropolitano, segundo a mãe, Márcio Leite conseguiu todo o atendimento que o estado de saúde dele, já bastante grave, pedia. Foi entubado assim que deu entrada e evoluiu com piora do quadro de saúde durante 7 dia.

No dia 14 de maio, 4 dias depois do Dia das Mães, Socorro perdeu o único filho homem. “Não tive Dia das Mães, como ter com um filho entubado? Não pude me despedir do meu filho. O corpo dele saiu do hospital já com o caixão lacrado direto para o cemitério com uma cerimônia de 10 minutos com 10 familiares”, lamenta emocionada.

A filha enfermeira já está recuperada.

Assim como Socorro, Karla Pereira, outra funcionária do Sindicato, teve caso positivo de covid-19 na família; mas diferente de Socorro, Karla está em processo de construção de um final feliz ao lado da mãe de 69 anos, que hoje está em casa se recuperando do coronavírus.

Maria da Conceição Pereira Santos é diabética, hipertensa, antes da pandemia, estava obesa, todas essas comorbidades já a impediam de sair de casa com frequência, por isso, a filha suspeita que outros familiares possam ter levado o vírus pra dentro de casa.

“Infelizmente no início de tudo isso, alguns parentes meus que moram comigo e minha mãe, na mesma casa, negavam a existência do vírus e por isso não tinham qualquer medida de prevenção”, conta Karla.

Dona Maria, assim como Márcio, teve tosse no primeiro dia de sintoma, além disso, a idosa teve febre alta e muita dor nas articulações. No mesmo dia foi levada à urgência, mas lá ouviu que era apenas uma virose, prescreveram dipirona, e a mandaram de volta pra casa.

Dois dias se passaram, e o diagnóstico de virose evoluiu para extremo cansaço, acompanhado de falta de ar. Mais uma ida à emergência. Dessa vez, detectaram clinicamente que D. Maria estava com o coronavírus. Fizeram raio-x que apontou líquido no pulmão, um alerta para possível água na pleura, e para ser acompanhada de perto por profissionais, a idosa já ficou internada para confirmarem a patologia.

“No dia seguinte, sábado de aleluia, minha mãe já foi pra UTI e lá ficou por 16 longos dias, em coma induzido. Logo no início, os boletins médicos eram diários. Sempre às 11 horas, alguém da família tinha que ir lá pra receber a informação, mas a pandemia foi crescendo e o boletim era passado por telefone, mas ai a periodicidade não era a mesma e isso só nos deixava aflitos, ansiosos, estressados”, lembra Karla.

“Esse é o único dia que tenho lembrança, eu estava tão desesperada e pedia ajuda pra não morrer”, conta D. Maria.

A cada ligação, todos se reuniam próximo ao telefone. Uma delas deixou a família ainda mais preocupada. “O médico disse que ela faria traqueostomia, pois estava com dificuldades pra respirar com a ventilação mecânica”, conta a filha da D. Maria.

Foi durante a internação na UTI que a família soube do resultado positivo, da D. Maria, para a covid-19. Nesse mesmo período, outros familiares dela tiveram sintomas todos leves e já estão bem.

As orações se intensificaram em meio às lágrimas, até que o milagre aconteceu, de acordo com Karla. “Um dia antes da cirurgia para a traqueostomia, minha mãe reagiu e a cirurgia foi cancelada. A partir daí, nossos dias começaram a ter cor, ela foi melhorando até que acordou do coma. Nossas preces se transformaram em agradecimento, todos choraram e agradeceram a Deus pelo dom da vida”, diz emocionada.

No dia seguinte, Karla finalmente pode rever a mãe, juntas elas ficaram por uma semana na enfermaria. Um dia antes dela receber alta para continuar o tratamento em casa, D. Maria foi retirada do oxigênio.

“Deus foi maravilhoso comigo, eu agradeço pelo dom da vida e o impressionante é que na UTI eu ouvi uma mensagem d’Ele que dizia que tinha chegado a minha hora de ir pra casa e isso me deu forças pra reagir e foi quando eu reagi e hoje estou aqui, na minha casa com minha família. A vitória foi de Deus”, afirma a idosa.

E mais uma vez, em mais um tratamento, o amor se fez presente e tão fundamental. E foi com todo esse amor que a família mais uma vez se reuniu para receber D. Maria de volta. “Todos eles são maravilhosos, tenho toda dedicação, amor e apoio, isso me ajuda muito. Eu não sabia que eu era tão amada assim, pela minha família, amigos e vizinhos”, revela D. Maria Pereira.

D. Maria em sessão com a fonoaudióloga Sarah Cutrim, e a filha, Karla, em pé

A idosa venceu a covid-19. Ela ainda não sente os movimentos do corpo, não consegue andar, ficar sentada só com ajuda de outra pessoa. Está em processo de reabilitação, isolada num quarto da casa, recebendo os cuidados dos filhos que só entram de máscara, além de fisioterapia domiciliar com Junior Moreira Leite, e a fonoaudióloga, Sarah Cutrim.

Até a publicação dessa matéria, o Pará já tinha 38.406 casos confirmados, 2.925 óbitos,27.764 recuperados, segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) (boletim atualizado pela Sespa em 31.05 às 22h15).

 

Fonte: Bancários PA com Sespa

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