Tema cada vez mais presente nos debates sobre o combate à violência contra a mulher, a disseminação de misoginia e ódio nas redes sociais, por meio de perfis “especializados” que enaltecem a masculinidade em detrimento das mulheres, é um problema que precisa ser enfrentado com efetividade a partir de uma série de ações, em especial, com a responsabilização das plataformas digitais.
Conteúdos de ódio contra mulheres se expandem com apoio de algoritmos e mecanismos de monetização. Por isso, especialistas alertam para o impacto na formação de jovens e defendem mudanças estruturais, que passam tanto pela regulação quanto pela transformação cultural. “A violência, além de ser um desvio de caráter, é um negócio lucrativo”, diz Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT.
Machosfera:
A chamada ‘machosfera’, um conjunto de perfis que propagam misoginia, violência simbólica e até apologia a agressões permanecem ativos, ampliam seu alcance e, muitas vezes, são recompensados com engajamento e monetização.
Para Amanda Corcino, esse cenário revela uma falha estrutural das plataformas digitais. “A internet virou um terreno livre e fértil para esse tipo de violência. Livre porque não há punição efetiva, e fértil porque os algoritmos entregam esse conteúdo para mais pessoas, ampliando alcance e monetização”, afirma.
A avaliação aponta para um modelo que premia o engajamento — independentemente do conteúdo — e permite que discursos violentos ganhem escala.
Crescimento acelerado e alcance ampliado
Os dados confirmam essa tendência. Levantamento do NetLab, da UFRJ, mostra que, mesmo com a redução no número de canais misóginos monitorados, o alcance dessas redes aumentou significativamente.
Em 2024, eram 137 canais, com cerca de 105 mil vídeos e 19 milhões de inscritos. Dois anos depois, o número de canais caiu para 123, mas a produção subiu para 130 mil vídeos, e o total de inscritos chegou a 23 milhões.
O dado revela uma mudança qualitativa: menos canais, porém mais ativos, mais produtivos e com maior audiência — um indicativo de que o discurso misógino não apenas persiste, mas se fortalece.
Como funcionam os perfis de ódio
Esse crescimento está diretamente ligado à atuação de influenciadores e canais que operam dentro da chamada “machosfera”, um ecossistema digital que reúne conteúdos voltados à promoção de uma masculinidade baseada na dominação e no controle sobre as mulheres.
Perfis como o de Thiago Schutz, conhecido pelo “Manual Red Pill Brasil”, exemplificam esse funcionamento. Sob o discurso de “desenvolvimento pessoal” ou “melhoria masculina”, esses canais difundem ideias que inferiorizam mulheres e reforçam papéis de gênero rígidos.
Entre as características centrais desse conteúdo estão:
. A ideia de que homens são prejudicados por uma suposta sociedade que favorece mulheres
. A generalização de comportamentos femininos por meio de estereótipos
. A defesa de que o homem deve exercer controle e autoridade nas relações
. A redução da mulher ao papel doméstico ou de submissão
Além disso, há uma forte presença de “coaches de masculinidade” que vendem cursos, mentorias e conteúdos pagos, transformando a misoginia em produto.
Da ideologia à violência
Esse universo está associado à chamada cultura “red pill”, que constrói uma narrativa de antagonismo entre homens e mulheres.
O educador Marcos Ribeiro, em entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, explica que essas redes operam a partir de uma lógica de disputa. “É uma rede que incentiva os garotos a verem a mulher como sua concorrente. A gente retomou uma masculinidade tóxica total”, diz, ao destacar que jovens passam a internalizar valores baseados na culpa atribuída às mulheres.
Esse processo é especialmente preocupante na formação de crianças e adolescentes. Ainda segundo o educador, nesse ambiente, jovens “aprendem a odiar as mulheres”, o que pode se manifestar em diferentes formas de violência — moral, psicológica e física.
Normalização da agressão
Dentro dessas comunidades, a violência não aparece de forma isolada, mas como parte de um processo de normalização.
Conteúdos começam com memes e piadas misóginas e evoluem para:
ameaças diretas
assédio e perseguição (stalking)
chantagens com imagens íntimas
apologia à violência física
Há também vídeos que simulam agressões – com socos, chutes e ataques – acompanhados de frases que naturalizam a violência diante da rejeição feminina.
Esse tipo de conteúdo contribui para banalizar o desrespeito e transformar a agressão em comportamento aceitável.
Algoritmos e radicalização
A lógica das plataformas intensifica esse cenário. Ao recomendar conteúdos semelhantes, os algoritmos criam ciclos de reforço que levam usuários a consumir materiais cada vez mais extremos.
Esse processo, muitas vezes descrito como um “buraco de coelho” digital, faz com que jovens sejam expostos repetidamente a conteúdos que:
. culpabilizam mulheres por frustrações pessoais
. reforçam visões distorcidas de relacionamento
. incentivam comportamentos agressivos
O resultado é uma radicalização progressiva, que combina isolamento, ressentimento e validação social dentro dessas comunidades.
Redes amplificam misoginia e tornam violência contra mulheres rotina digital
Em entrevista ao Portal da CUT, a comunicadora da Fundação Perseu Abramo, Kriska Carvalho, descreve um ambiente em que ataques são constantes, estruturados e incentivados por dinâmicas digitais que favorecem o engajamento pelo ódio. Nesse cenário, mulheres, em especial ativistas, se tornam alvos permanentes de ofensas, ameaças e campanhas coordenadas de perseguição.
A ausência de punição é, segundo ela, o principal combustível dessa escalada, já que sem consequência, a violência se intensifica. Grupos organizados operam com milhares de seguidores, promovendo exposição sistemática de mulheres e utilizando ferramentas como o doxing para ampliar o impacto dos ataques.
Em um dos casos relatados, após uma denúncia, uma militante teve seus dados pessoais divulgados e passou a ser alvo de ameaças, enquanto o conteúdo permanecia ativo na plataforma.
Diante desse quadro, Kriska defende que o enfrentamento passa necessariamente pela responsabilização das empresas de tecnologia e por medidas que ultrapassem o campo do discurso. “Discurso não vai resolver. Se a gente não agir de verdade, isso só vai piorar”. Para ela, sem regulação eficaz, educação e mobilização social, a tendência é que a violência continue se expandindo — cada vez mais organizada, visível e naturalizada.
Fonte: CUT