Desconectar-se do mundo virtual, para conectar-se com o mundo real. No ‘Mulheres, território e resistência’, bancárias se encontraram e reencontraram consigo e com outras, em meio à natureza, em um evento inédito e com a força da mulher.
“Essa vivência aqui é porque eu me reconheço muito em outras mulheres. Então eu vim sem expectativa nenhuma, porque eu sei que no final disso tudo eu vou levar assim, uma mochilinha de muitas histórias, de muita riqueza que vai somar a esse novo projeto que eu tenho, de me reencontrar e descobrir quem eu sou, quem eu quero ser”, explicou a bancária do Banco do Brasil, Adriana Rodrigues, durante a roda de conversa.
A descoberta a que ela se refere veio aos 51 anos, mais precisamente em janeiro do ano passado quando a segunda filha dela saiu de casa. “Quando a minha filha casa e sai, eu entro num processo assim que eu estou muito fissurada, que é o de me observar apenas como Adriana. Porque no nosso papel de mulher, a gente tem muitas capas que a gente precisa colocar ao longo da vida, né? A da funcionária, a da mãe, que é quase que permanente, a da esposa. E quando esse momento ocorre, eu voltei para mim, mas eu não voltei para Adriana, que tinha 20 anos. Eu voltei para uma Adriana de 51, que nem se conhecia direito. Eu não sabia que música realmente que eu gostava, porque em casa tocava as músicas de todo mundo”, lembrou.
Adriana também contou que tinha toda uma programação para o dia, e assim que soube da atividade, cancelou tudo. A mesma coisa fez a bancária da Caixa, Lilian Prado.
Diferente delas, outras bancárias que tinham interesse em participar da programação, não conseguiram por vários motivos, mas um em comum: o de ter que cuidar de algo ou de alguém.
“Que a gente possa se desconectar do mundo lá fora e se conectar umas às outras, porque um dos desafios que o Sindicato teve, por exemplo, para construir essa atividade, foi de conseguir que as mulheres se liberassem para estar aqui. Eu acho que todas vocês devem ter conversado com alguém, convidado alguém e é muito difícil para as mulheres tirarem um dia que nem é completo, já que a partir das 16h a gente já está de volta. Mas como que é difícil isso para as mulheres? A gente carrega o mundo nas costas. Então, quem conseguiu estar aqui, com todos os desafios que foi, que a gente possa se conectar e possa se fortalecer, sabe? Que possamos aproveitar sem culpa esse momento. Que a partir de hoje, talvez algumas amizades e parcerias possam surgir, e que a gente se fortaleça nos dias que virão”, comenta a presidenta do Sindicato, Tatiana Oliveira.
Mas toda essa troca de falas e saberes começou com um farto café da manhã já que a mulherada saiu cedo da capital paraense rumo ao sítio Gira Sol, o primeiro local da atividade.
“Eu queria propor para vocês uma conexão com esse momento do alimentar. Alimentação é o maior feitiço que existe no mundo, mais poderoso de todos, melhor remédio que existe, para curar qualquer coisa e a gente negligencia ela. A gente às vezes come correndo, come com o celular na mão, não come para fazer um trabalho. Não sou de nenhuma religião, mas eu gosto de agregar práticas das diversas religiões, e eu vou compartilhar com vocês que eu aprendi com a chilena Mestre Flori. Ela passou um tempo na Índia e aprendeu um mantra que significa ‘a minha identidade é verdadeira e agora eu vou alimentar a verdade’ que é ‘Sat Nam’; aí a gente faz assim, respira fundo, solta, a gente vai puxar a respiração e soltar”, orienta o mirongueiro, Caburé.
Bem alimentadas chegou a hora de adentrar a floresta por uma trilha cheia de significados e representações que começaram com a caminhada em silêncio até o encontro com uma copaibeira ferida durante alguma extração do óleo.
“A gente demora anos para cicatrizar, né? Feridas que foram lá nas nossas avós, nas nossas tataravós, e às vezes ainda está na gente. Imagine, olha só, ela está cicatrizando com toda a força, com toda a energia da floresta, demorou, está demorando bastante. Eu já venho morando aqui há sete anos e quando no primeiro ano que eu vim ela já estava com ferimento, mas ele estava maior, estava mais dolorido isso aqui, mais exposto e para tirar a copaíba a gente precisa de um material específico, um parafuso grande, mais ou menos da espessura de um dedo e a gente vai enroscando, tipo saca-rolha, vai enrolando com uma manivela”, relata a professora e educadora, Solange Oliveira, em uma analogia das cicatrizes na árvore e nas mulheres.
Semelhança que não é mera coincidência. “O que foi dito lá na mata, é muito verdade e me tocou profundamente. Todas nós mulheres trazemos cicatrizes das nossas ancestrais, e o nosso trabalho hoje, enquanto mulheres, enquanto mães, mães de meninas e de meninos, é promover um mundo melhor para nossas meninas, e elas precisam estar conectadas com esse momento, elas precisam conhecer para saber se defender diante de qualquer situação, saber se posicionar. Então eu digo que hoje eu fui convidada pela Sara (filha), para que ela viva esse momento, para que ela comece a ter essa identidade”, corrobora a bancária da Caixa, Julyane Tuma.
Assim como teve bancária que levou filha (o), teve quem levou a mãe. “Eu sou porque ela é, eu achei um espaço interessante dela participar, e para mim está sendo muito importante viver e compartilhar tudo isso com quem sempre cuidou de mim. Agradeço ao Sindicato por esse momento”, reconhece a bancária da Caixa, Matilde Silva dos Santos acompanhada da genitora Maria Damiana dos Santos.
“Uma vida sem violência é o direito de todas as mulheres”
“Uma vida sem violência é um direito de todas as mulheres. Parem de nos matar!”, com esse jogral a diretora de Mulheres, Salete Gomes encerrou a roda de conversa agradecendo a presença de todas as mulheres, reforçando o Whatsapp do projeto ‘Basta! Não irão nos calar!’ (91) 99257-5443 – um canal de denúncias exclusivo para as trabalhadoras do sistema financeiro que estejam em situação de violência doméstica e familiar, além do assédio sexual no trabalho.
Do sítio, as mulheres partiram para um balneário de água gelada e cristalina com direito à almoço e comprinhas na feira agroecológica.
“Essa atividade foi feita por mulheres do nosso Sindicato para outras mulheres, em um formato totalmente inédito e diferente de tudo que já fizemos. Nossa intenção foi de desconectar por completo, deixar os celulares de lado, nem sinal funcionava na primeira locação; e depois encerrar a programação com algo leve, livre e descontraído; onde cada uma pôde conversar um pouco mais e se conhecerem melhor. Nosso muito obrigada a todas que vieram e seguimos contando com vocês no fortalecimento das nossas lutas em uma verdadeira rede de apoio feminina bancária”, finalizou Salete Gomes.
Confira aqui e aqui mais um pouco, em imagens, do que rolou no dia
Fonte: Bancários PA