Mais de 60% das famílias que vivem em favelas brasileiras enfrentam insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, cresce o número de crianças com excesso de peso nesses territórios. Entre as crianças de 5 a 10 anos, 34,7% apresentam excesso de peso, sendo mais de 21% com sobrepeso e 12,95% com obesidade. A pesquisa “Ambientes alimentares em favelas: percepção sobre o acesso aos alimentos de moradores de favelas brasileiras”, realizada pelo Instituto Desiderata, ouviu 900 domicílios em três territórios: Complexo da Maré e Caramujo, no Rio de Janeiro, e Coque, em Pernambuco.
Em entrevista ao jornal ‘É de Manhã’, da Rádio Brasil de Fato, a nutricionista Ana Silvia Senna, do Instituto Desiderata, explica que o grande desafio não é apenas a disponibilidade do alimento, mas o acesso a produtos saudáveis.
“A qualidade da alimentação vem sendo diretamente impactada pelo que está sendo ofertado no ambiente. A insegurança alimentar vem muito da preocupação com a garantia de acesso àquele alimento. Então, se no meu ambiente eu só tenho alimentos que não são saudáveis, eu vou ter a insegurança alimentar coexistindo”, afirma.
Senna fala sobre os desertos alimentares, que é um conceito para definir as poucas opções dentro de um contexto mais amplo para realizar escolhas por uma alimentação mais saudável. A nutricionista conta que uma das favelas ouvidas na pesquisa retrata esse cenário. “As pessoas precisam andar mais de 30 minutos para o principal estabelecimento de compras de alimentos. Então, nesses ambientes, existem muitos pequenos comércios que vão vender mais alimentos processados, porque são mais baratos, e os alimentos saudáveis que existem têm um preço maior e uma qualidade pior comparado a outros espaços de venda fora desses territórios”, pontua.
Existe um outro componente trazido pela nutricionista do Instituto Desiderata, que é a relação entre a indústria de ultraprocessados e o mercado publicitário. “A forma como eles vendem esses alimentos, sempre trazendo um apelo emocional para a compra de produtos que não são tão interessantes para a criança, pensando nessa fase de crescimento, para a gente ter no dia a dia como rotina, não é o ideal. Isso é muito prejudicial. A gente vê isso também em estabelecimentos comerciais. Até mesmo a forma com que os estabelecimentos organizam a disposição desses alimentos, mais na altura das crianças”, pondera.
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Fonte: Brasil de Fato