A Inteligência Artificial (IA) já deixou de ser uma possibilidade distante para se tornar parte do cotidiano do trabalho, da produção industrial e das formas de organização das empresas. Mas, se a tecnologia promete ganhos de produtividade, eficiência e novos modelos de gestão, também impõe desafios ao emprego, às campanhas salariais, à representação sindical e ao próprio equilíbrio das relações de trabalho. Foi com esse pano de fundo que o segundo dia do seminário “Macrossetor Indústria da CUT e Inteligência Artificial: desafios à negociação coletiva”, atividade promovida pelas confederações da CUT que representam trabalhadores CUT da indústria em parceria com a Fundação Friedrich Ebert (FES), IndustriAll, Dieese e Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID Brasil) nos dias 25 e 26 de maio.
O encontro, que reuniu sindicalistas, representantes do governo, pesquisadores, e especialistas para discutir os impactos da IA no mundo do trabalho e as respostas que o movimento sindical precisará construir nos próximos anos, teve em seu segundo dia debates fundamentais sobre o uso da IA – se será usada para ampliar direitos e melhorar as condições de trabalho ou para aprofundar desigualdades, intensificar a exploração e enfraquecer a negociação coletiva. A resposta, indicaram os participantes, dependerá da disputa política e sindical em torno do tema.
Mediando a primeira mesa de debates, a vice-presidenta nacional da CUT e presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores no Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira, defendeu que o movimento sindical compreenda os impactos da Inteligência Artificial para conseguir intervir politicamente e negociar seus efeitos sobre o trabalho. Ao falar da experiência do setor bancário, ela destacou que a tecnologia já reorganiza profundamente os serviços e a forma de atuação das empresas.
Ao refletir sobre os efeitos da digitalização acelerada, Juvandia também chamou atenção para a velocidade das mudanças no mundo do trabalho. “A gente vive um processo que é intenso, contínuo, completamente disruptivo, que muda completamente a realidade. A pandemia foi fundamental para acelerar esse processo de uso intenso de tecnologia e, dentre elas, a inteligência artificial”, afirmou a vice-presidenta da CUT.
Ao citar o setor bancário, Juvandia afirmou que os bancos já utilizam intensamente Inteligência Artificial e destacou os impactos das transformações tecnológicas sobre o trabalho e a organização dos serviços.
Para a dirigente, compreender essas mudanças é condição para que sindicatos consigam disputar os rumos da tecnologia. “A gente precisa continuar com essa pauta agora, qualificando os sindicatos e qualificando as direções”, disse, ao alertar que há uma disputa política em torno do uso da IA.
Ao abrir os trabalhos do segundo dia, a coordenadora do Macrossetor Indústria da CUT, e presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Vestuário da CUT, Cida Trajano, defendeu que os sindicatos acompanhem mais de perto a implementação de tecnologias nas empresas e se preparem para negociar seus impactos sobre trabalho, saúde e organização produtiva.
IA já altera o mercado de trabalho e o Brasil não está fora desse processo
Na mesa “A Inteligência Artificial no mercado de trabalho”, a coordenadora-geral de Estatísticas do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Paula Montagner, destacou que o Brasil já está inserido no processo de transformação tecnológica e industrial impulsionado pela IA, contrariando a ideia de que o país estaria apenas observando mudanças produzidas no exterior. Segundo ela, políticas como a Nova Indústria Brasil, o Novo PAC e o Plano de Transformação Ecológica vêm articulando investimentos em digitalização, conectividade e modernização produtiva.
“A inteligência artificial tem que ser tratada como algo do bem e não apenas como um produto que pertence a algumas poucas empresas internacionais que olham para o mercado consumidor dos outros países apenas como dependentes deles, apenas como um espaço que eles podem explorar livremente”, afirmou Paula.
De acordo com a representante do MTE, a adoção da IA já avança nas empresas brasileiras. Ela observou que, até 2024, cerca de 71 mil empresas utilizavam ferramentas de inteligência artificial, número que tende a crescer rapidamente.
Ao mesmo tempo, Paula alertou que a digitalização não ocorre em um mercado de trabalho neutro. Segundo ela, a histórica desigualdade do mundo do trabalho brasileiro pode fazer com que a tecnologia reproduza ou amplie precarizações já existentes, como a pejotização e a invisibilização de trabalhadores ligados às plataformas digitais e ao processamento de dados.
“A gente tem a pejotização dos profissionais das áreas de comunicação e mídia […], o crescente número de trabalhadores invisíveis, que são os trabalhadores de dados junto com os trabalhadores de plataforma, que têm condições de vida muito distantes daquilo que seria o trabalho decente”, afirmou.
A coordenadora do MTE também chamou atenção para os riscos de concentração tecnológica e econômica. Para ela, a IA não pode ser vista apenas como uma inovação técnica, mas como tema estratégico de soberania nacional, especialmente porque sua infraestrutura — como data centers, energia e armazenamento de dados — se tornou um ativo econômico e geopolítico.
Ao apresentar a visão do DIEESE sobre o tema, Gustavo destacou a rapidez com que a IA passou a ocupar o centro das discussões sobre o futuro do trabalho.“Até uns três anos atrás a gente falava muito de indústria 4.0, internet das coisas. Mas de 2023 para cá, desde quando o ChatGPT foi divulgado para o amplo público, a inteligência artificial entrou e dominou essa discussão”, afirmou.
Tecnologia pode complementar trabalho — ou substituir trabalhadores
Se, por um lado, a Inteligência Artificial cria oportunidades, por outro ela levanta preocupações concretas para sindicatos e trabalhadores. Esse foi um dos focos da mesa sobre os desafios da IA para as negociações coletivas e a representação sindical, que discutiu os impactos da tecnologia sobre emprego, remuneração, poder de barganha e organização sindical.
No debate, foi destacado que ainda existe pouca regulamentação sobre IA e que governos e empresas tentam equilibrar inovação tecnológica e proteção social. Mas também houve o alerta sobre deixar o desenvolvimento da tecnologia exclusivamente nas mãos das grandes empresas de tecnologia, o que pode aprofundar desigualdades e concentrar ainda mais renda e poder.
Um dos pontos centrais apresentados foi a diferença entre uma IA voltada à automação substitutiva, criada para eliminar postos de trabalho, e uma IA usada como ferramenta de apoio ao trabalho humano, ampliando produtividade sem eliminar trabalhadores.
Para Tábata Leal, integrante do conselho gestor do Arranjo Produtivo Local (RH do Consórcio do ABC), “a IA deve servir para a humanidade”.
“Qual é o propósito dela se não está servindo à humanidade?”, questionou Tábata ao problematizar o rumo atual do desenvolvimento tecnológico, hoje fortemente controlado por grandes corporações privadas.
Outro ponto destacado no debate foi que o avanço da tecnologia e o aumento da produtividade não resultam, automaticamente, em melhores condições de vida para os trabalhadores. Historicamente, ganhos produtivos só se converteram em salários melhores, redução de desigualdades e ampliação de direitos quando houve organização sindical e negociação coletiva. Nesse cenário, representantes sindicais avaliaram que a negociação tende a ganhar ainda mais importância diante do avanço da Inteligência Artificial.
Entre as preocupações levantadas estão o uso da IA para vigilância e monitoramento excessivo nos ambientes de trabalho, a intensificação do ritmo de produção, a responsabilização de trabalhadores por decisões tomadas por sistemas automatizados, além de riscos de discriminação algorítmica e uso indevido de dados pessoais.
O desafio sindical: levar a IA para a mesa de negociação
Se a tecnologia já reorganiza tarefas, ritmos produtivos e formas de contratação, dirigentes sindicais defenderam que a Inteligência Artificial precisa entrar definitivamente nas campanhas salariais e acordos coletivos.
A avaliação apresentada no seminário é que sindicatos precisarão negociar temas que até poucos anos atrás estavam fora do horizonte das relações de trabalho: transparência algorítmica, proteção de dados, requalificação profissional, impactos da automação sobre empregos, remuneração pelos ganhos de produtividade, saúde mental e direito à desconexão.
Ao tratar dos desafios para a negociação coletiva, Aroaldo Oliveira, presidente da IndstriALL Brasil defendeu que sindicatos retomem experiências de regulação de mudanças tecnológicas para enfrentar os impactos da IA sobre o emprego.
“A empresa tinha que informar e discutir previamente com o sindicato. Comprou o programa, vai impactar posto de trabalho? Quanto? Duas, dez, cinquenta, cem pessoas? Vamos requalificar, procurar alocar em outra atividade”, afirmou, ao lembrar cláusulas negociadas em processos anteriores de reestruturação produtiva.
Saúde mental
A preocupação com o aumento da pressão e do adoecimento mental no ambiente de trabalho também foi tema abordado nos debates com a conclusão de que tecnologias capazes de acelerar processos e ampliar controle podem agravar jornadas intensas e níveis de cobrança, caso não haja mediação coletiva.
Apesar dos riscos, a visão predominante entre os participantes – dirigentes das confederações cutistas – foi a de que o movimento sindical não deve assumir uma posição de rejeição à tecnologia, mas disputar seus usos sociais. A defesa apresentada foi a de uma IA voltada ao fortalecimento do trabalho humano, da produção industrial e da melhoria da qualidade de vida, e não apenas à redução de custos empresariais.
Ainda no seminário, dirigentes sindicais constataram que a Inteligência Artificial presente nas fábricas, escritórios, plataformas e cadeias produtivas e vai exigir novas formas de negociação, formação política e organização coletiva. A disputa, indicaram os debates, não será apenas tecnológica, mas também social e política. Ou seja, significa definir a quem a inovação servirá e quem ficará com os ganhos produzidos por ela.
Fonte: CUT Brasil