“Eu trabalho cinco por dois e, aos sábados, qualquer mulher que está nesse plenário, que está no centro urbano ou que está numa comunidade, vai ao salão de cabeleireiro. E vai estar fechado aos sábados para nos atender? (…) Aos domingos eu abasteço o supermercado, eu busco comida para minha família, eu compro remédio para minha mãe. Vai estar tudo fechado aos domingos para mim? É certo isso?”, afirmou.
A declaração da diretora-executiva jurídica da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Luciana Nunes Freire, feita nesta quarta-feira (1º), durante audiência pública no Senado sobre o fim da escala 6×1, voltou a expor o embate entre representantes dos empresários e dos mais ricos contra os trabalhadores.
A audiência reuniu representantes do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, da oposição, de empresários e dos trabalhadores para discutir a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6×1. O texto está há mais de um mês parado na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e trata do tempo de trabalho e de descanso dos trabalhadores brasileiros.
Durante a audiência, empresários dos setores do comércio, da indústria e dos transportes, além de senadores da oposição, criticaram a proposta sob o argumento de que a redução da jornada elevaria os custos do trabalho e prejudicaria a economia. Foi nesse contexto que Luciana Nunes Freire afirmou que o fim da escala poderia comprometer o funcionamento de serviços e do comércio aos fins de semana.
A declaração repercutiu nas redes sociais e foi alvo de críticas da deputada federal Erika Hilton (PSol-SP), uma das principais defensoras da PEC. Para a parlamentar, a fala parte de uma interpretação equivocada da proposta e reforça uma visão de que determinados trabalhadores devem abrir mão do descanso para atender às necessidades de outros.
“Uma mulher acaba de dizer em pleno Senado que é contra o fim da escala 6×1 porque ela, que faz escala 5×2, faz cabelo e compras aos sábados e as pessoas precisam trabalhar para ela”, escreveu Erika.
A deputada acrescentou que “além de não conhecer o conceito de escala, ela se acha proprietária da vida e do trabalho alheio”. E criticou o fato de Luciana ocupar um cargo de direção na Fiesp. “Agora, o ‘detalhe’: essa mulher é simplesmente Diretora-Executiva da Fiesp, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, que representa os patrões e os bilionários. É esse o nível da ‘elite’ do Brasil, que parece não ter superado a escravidão”, afirmou.
O fim da escala 6×1 não significa o fechamento de supermercados, farmácias, salões de beleza ou outros serviços aos sábados e domingos. A proposta prevê a reorganização das jornadas por meio de escalas de revezamento, garantindo o funcionamento contínuo desses estabelecimentos, enquanto os trabalhadores passam a ter direito a mais tempo de descanso.
Nesse modelo, o cabeleireiro também pode ir ao supermercado, a atendente da farmácia consegue cuidar da família, o caixa do mercado tem a possibilidade de descansar em alguns fins de semana e trabalhadores de diferentes categorias deixam de permanecer presos a uma rotina de seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de folga.
O centro do debate, segundo os defensores da PEC, não é o fechamento do comércio, mas a ampliação do direito ao descanso para quem hoje trabalha sustentando o funcionamento desses serviços. Nesta terça-feira (30), milhares de pessoas protestaram em diversas cidades, exigindo que o Senado vote a PEC do fim da escala 6×1.
Fonte: Brasil de Fato